Dicas sobre trabalhar na Turquia da Gabrielle Q R Uğan autora do blog Minha Turquia. Gabrielle é casada com o turco Irfan e mora no país desde 2011. Acesse o blog, pare ler mais sobre sua história de amor com a Turquia. O texto abaixo foi originalmente publicado no seu blog e é uma cortesia de Gabrielle.

Desde que comecei o blog Minha Turquia, muitas pessoas querem saber sobre as oportunidades de trabalho para brasileiras no país. Existem? Quais são? Como conseguir? Resolvi compilar tudo que sei sobre o assunto aqui nesta postagem.

Para começar, qualquer pessoa que procura por emprego precisa “anunciar” seu CV em algum lugar, além de avisar amigos e colegas sobre a procura, para ter alguma chance. Os sites turcos mais famosos para busca de emprego são: Kariyer.net, Yenibiriş.com e Secretcv.com

Então vamos à realidade… Se você fala inglês, mas não fala turco, não tem nacionalidade turca e consequentemente não tem visto de trabalho, esqueça a idéia de encontrar um trabalho na sua área de formação. Se você for formada em letras, seja tradutora, professora ou formada em turismo, você terá chances de encontrar um trabalho. Também poderá ter alguma chance se for formada em comércio exterior ou afins. 75% ou mais das oportunidades que aparecem para brasileiras são em agências de turismo; cerca de 15% em escolas para dar aulas de inglês para crianças ou em cursos para dar aulas de inglês ou português para adultos; cerca de 5% para traduções de inglês-português; e cerca de 5% em áreas de comércio exterior para as formadas na área ou com experiência. Também existem algumas oportunidades como babá. Esses percentuais são somente uma ideia, com base no que tenho vivenciado. Nunca fiz uma pesquisa com métodos científicos sobre o assunto.

Existem também oportunidades em empresas internacionais, que admitem estrangeiros executivos, com experiências específicas. Para isso, seu CV tem que ser fenomenal ou terá que aceitar entrar na empresa como trainee/estagiário.Não é fácil, mas é uma opção melhor do que trabalhar fora da sua área, ganhando mal o resto da vida.
Não quero desanimar você caso esteja pensando que “sendo eu casada com um turco, terei visto de trabalho e isso aumentará as minhas chances!”. Nope!!! Mesmo casada com um turco, você terá que encontrar um emprego que aceite dar entrada em um visto de trabalho para você, porque o casamento garante o visto de residência, mas você continua sendo uma estrangeira.
Para não precisar do visto de trabalho em todo emprego que encontrar, você terá que se tornar uma cidadã turca, após três anos contínuos de casamento. Se você não fala nem inglês nem turco, suas chances são mínimas. Você só se encaixará em cargos que não precisa se comunicar (raros e muito mal pagos).
O ideal então seria procurar um emprego entre brasileiras. Aí tudo depende do seu talento, do que pode oferecer. Tenho uma conhecida que está trabalhando duro e ganhando seu espaço entre as brasileiras na Turquia, fazendo massagens, pé e mão e depilação. Ela já se vira na língua turca e tem uma clientela nativa também. Quem quer e sabe, faz acontecer de alguma maneira, não é mesmo?

Outra coisa que é importante ressaltar é que na Turquia não existe uma Carteira de Trabalho como no Brasil. O compromisso entre a empresa e o funcionário é selado com um contrato de trabalho. Normalmente, para um emprego de meio período, o tempo de experiência é de um mês; para um emprego de período integral o tempo de experiência é de dois ou três mês. Também não há férias de 30 dias por ano como no Brasil. O sistema é diferente. De acordo com o tempo na empresa, a pessoa tem mais dias de férias por ano. De um a cinco anos de trabalho na empresa  são 14 dias de férias; de cinco a quinze anos são 20 dias; e de 15 anos em diante são 26 dias. Ficamos assustados com isso, principalmente porque precisamos visitar a família no Brasil, mas veja bem: na Turquia há muitos feriados, como no Brasil e isso não é bom para a economia do país. Quando todos os funcionários saem de férias 30 dias por ano, além de não trabalharem nos milhões de feriados que temos, fica difícil acelerar o crescimento do país.

Se quiserem saber mais, o órgão público que regula os direitos trabalhistas na Turquia é o SGK – Sosyal Güvenlik Kurumu (TR) / Social Security Institution (EN).
 
Algumas dicas:

Assim que chegar na Turquia ou em qualquer país, vá ao Consulado Brasileiro, se apresente, faça seu registro e diga o que faz. Deixa seus contatos e peça para receber todas as notícias do Consulado;

Faça o máximo de networking possível. Entre no site InterNations e participe dos eventos da cidade em que estiver;

Entre em um curso de Turco e se desenvolva, pois não há algo mais frustrante do que estar num lugar onde não pode se comunicar. E essa história de que o inglês resolve tudo não é verdade. Morando na Turquia, você vai precisar de turco;

Se cadastre nos sites de busca de emprego e ressalte suas principais habilidades, para o tipo de empresa que procura. Coloque sua nacionalidade. Isso pode ser importante para alguma empresa, na hora da escolha;

Nas entrevistas, seja objetiva e direta. Turcos são práticos e não gostam de muitas firulas nos negócios;

Não passe insegurança quanto à certeza de permanecer na Turquia. Ninguém dará emprego para alguém que não sabe se quer ficar e que não tem nenhum vínculo no país.

O jeito turco de fazer negócios
Os turcos gostam de fazer negócios somente pelo lado racional, se vale a pena, negócio fechado. Acho justo, rápido e sem perda de tempo e de dinheiro. Mas os brasileiros fazem negócio pelo lado emocional. Eles gostam de conhecer a pessoa melhor, de conversar, sair pra jantar e o negócio fica em último plano… até que alguns anos depois, o negócio sai (risos). Na firma onde eu trabalho, efetuamos vendas para o mundo inteiro apenas pelo telefone, mas para o Brasil, precisamos estar presentes de corpo e alma. Difícil explicar essa mentalidade para os turcos.
Eu represento uma empresa turca no Brasil, ou seja, trabalho com comércio exterior. Mas como a equipe brasileira é composta por mim e pelo meu marido, eu faço a parte de comunicação e marketing necessária para o Brasil, assim como pequenas traduções português-inglês no dia a dia do negócio e ele faz toda a intermediação entre os clientes e a empresa turca. Eu e meu marido trabalhamos na empresa, justamente para intermediar toda a situação, com muita paciência. Contamos até 1000 e seguimos com o objetivo de unir esses dois mercados tão distintos.
Ambiente de trabalho
No escritório rolam piadinhas, risadas e comilança como em todo ambiente de trabalho. Rolam uns gritos nervosos do chefe também, mas daqueles de assustar mesmo! Turcos quando gritam, sai da frente. ÇAY! Chá o tempo inteiro chegando na mesa. Até quando não quero, quando não aguento mais, chega chá. Quando a copeira vê que não estou mais tomando o chá comum, ela vem com um chá diferente, especial… Oh my God!
Quanto à língua, não tenho dificuldades de comunicação, pois só lido com pessoas que falam inglês. Eu entendo e falo turco com todo mundo, mas quando estamos em uma reunião ou falando sobre negócios, escuto o turco, mas falo em inglês, porque não tenho vocabulário profissional necessário para me explicar em turco.
No mais, tenho que mostrar a todo momento o potencial do Brasil e tudo o que acontece no mercado. As mudanças, os produtos novos, as tendências, os boatos etc. Fico o tempo inteiro lá e cá. Brasil e Turquia. Muita gente me diz: “Esse é o meu sonho!”. Era o meu também, mas sinceramente, não é fácil ficar vivendo em “ping-pong” para sempre. Chega uma hora que precisamos parar e ter uma rotina, para poder ter filhos e criá-los em algum lugar. Não dá pra colocar o filho na mochila a qualquer momento da vida. Pelo menos ainda não pensei em um jeito!
Eu quero que você que está lendo esta postagem e que está interessada em um trabalho na Turquia saiba que a minha experiência de trabalho é única e rara entre as brasileiras que eu conheço. Cada uma tem a sua experiência. Algumas melhores outras piores. E cada uma vive de acordo com suas escolhas. Cada escolha leva para um caminho diferente. Não dá para planejarmos tudo, porque quase nunca as coisas acontecem como planejamos, mas temos que escolher com a consciência do que nos espera, das barreiras que virão, das diferenças culturais não só em casa e na rua, como no ambiente profissional também.
Esperança
Eu sei que muitas meninas quando leem meu blog têm esperança de que seus sonhos na Turquia podem dar certo. Fico muito feliz de poder dar esperança, mas não quero fazê-las sonhar sem um pé no chão.
Ser bem sucecida profissionalmente na Turquia é muito difícil, mas não impossível. Desejo boa sorte pra você!

Gabi Uğan

Fotos: Arquivo pessoal