Maria de Fatima Alencar Viana era professora de inglês no Brasil. Há nove anos morando no exterior, atua como assistente social de um Conselho de Menores, na Alemanha

Eu me mudei para a Alemanha por causa de um relacionamento. Meu ex-namorado era alemão e nos conhecemos no Brasil, onde ele realizava estágio em uma empresa alemã. Com ele mantive um rela-cionamento de cinco anos à distância. Ao terminar a universidade na Alemanha, ele foi trabalhar no Brasil, onde vivemos mais cinco anos juntos. Depois disso, a empresa onde ele trabalhava o enviou de volta ao seu país natal e eu vim junto. O relacionamento não seguiu, mas eu acabei ficando aqui nas gélidas terras germânicas.

Ingressar no mercado de trabalho em um país estrangeiro é sempre muito dificil. Se a pessoa não domina o idioma, torna-se algo quase impossível. Portanto, o meu primeiro objetivo ao chegar foi  aprender o bendito alemão. No início trabalhei como hostess em feiras. O fato de se tratar de um público internacional e de eu falar inglês, português e espanhol fluentemente  ajudou bastante.

Quando já falava um pouco mais o alemão, entrei em uma empresa de seguros, cuja função era dar assistência aos segurados alemães que encontravam-se  hospitalizados no exterior e solicitavam o retorno imediato ao país. Mais uma vez o fato de falar outros idiomas me ajudou muito.

Mas a verdade é que profissionalmente eu comecei tudo do zero. Fiz uma nova universidade e atuo na área de assistência social há cinco anos.

Uma das coisas que me fascina na Alemanha é a relação entre chefes e subordinados no trabalho. Aqui chefe não é um deus, portanto pode receber  um não como resposta de um subordinado. Na minha primeira experiência profissional lembro-me que ficava de boca aberta ao ver a reação das funcionárias quando o chefe aparecia com mais trabalho. Elas falavam “im Moment geht nicht ” (no momento não tenho tempo). O chefe então dava meia volta sem questionar e retornava mais tarde. Eu trabalhei em outras três empresas, e o relacionamento entre chefes e subordinados não era diferente. A pausa dos funcionários, seja para tomar um café ou para fumar um cigarro, é sagrada. Eu costumo brincar que mesmo se a Chanceler alemã Angela Merkel aparecesse e solicitasse ajuda de algum deles, a resposta seria clara: “depois, agora estou na pausa”. No Brasil, ouvi várias vezes pessoas que ocupavam cargos de gerência dizerem que não frequentavam os happy hours para manter distância dos subordinados.

Outra diferença notável  é que no trabalho não existe a expressão “deixa pra lá ou para amanhã”. Tudo é anotado, conversado, planejado e apurado. Eu trabalho diretamente com diversas repartições públicas e seria um sonho se algum dia tivéssemos no Brasil tanta eficiência e respeito ao cidadão como nos orgãos públicos daqui. Só não pode-se  confundir cordialidade com simpatia. O funcionário público alemão é tudo menos simpático. Mas de uma coisa você pode ter certeza: o seu problema será solucionado.

Uma das primeiras recomendações que faço quando inicio o trabalho com uma família estrangeira é que não adianta omitir fatos ou vir com aquela velha história de que não recebeu o documento ou que não sabia. É só uma questão de tempo e tudo será descoberto. Se a pessoa, por exemplo, recebeu um Euro indevidamente terá que devolvê-lo.

Como trabalho diretamente com o tema educação aqui, me choca o pouco contato que os pais que trabalham fora têm com seus filhos no Brasil. Costumo dizer, que nos grandes centros do país, a educação dos filhos está terceirizada. Os pais levam os filhos dormindo para as escolinhas e os trazem para casa também dormindo. Aqui as crianças ficam no máximo até às 17 horas nas escolinhas. Muitos pais podem optar por uma carga horária de trabalho flexível. A maioria das minhas colegas, que são mães, trabalha entre 20 e 30 horas por semana.

Outra diferença grande é a forma como as crianças dos dois países lidam com regras. A criança alemã aprende desde pequena que na vida existem direitos e deveres. Ela aprende a desenvolver uma rotina familiar e a reconhecer o seu papel dentro da família.
No meu trabalho, eu encontro muita dificuldade ao tentar implementar essa estrutura em uma família latino-americana. As mães latinas geralmente associam a educação mais regrada à falta de amor e de carinho. Escuto com frequência que uma sociedade cheia de regras robotiza as pessoas. Deve ser por isso que os alemães são mais formais e menos espontâneos, mas a ausência de regras gera, na maioria das vezes, desrespeito ao próximo, mesmo na vida familiar. Se eu não cumpro com os meus deveres, alguém vai ter que fazer por mim e esse alguém será geralmente a pessoa mais sobrecarregada da família: a mãe.

Como a desigualdade social no Brasil é muito grande, o contato entre a camada social mais baixa e a mais alta existe praticamente só em forma de prestação de serviços da classe inferior à classe superior. Aqui um motorista de ônibus pode encontrar, por acaso, o seu médico jantando no mesmo restaurante ou de férias na Grécia ou na Espanha. Os filhos desse mesmo motorista frequentam muito provavelmente a mesma escola que os filhos de um diretor de empresa, já que aqui escolas particulares praticamente não existem.

Eu trabalho para o conselho de menores e há duas maneiras de chegarmos até as famílias. A mais simples delas é quando as famílias estão sobrecarregadas com questões ligadas à educação dos filhos e solicitam ajuda. A outra possibilidade é através das escolas, creches, pediatras ou denúncias. Geralmente trata-se de suspeitas de que a situação familiar não esta bem estruturada e que crianças ou adolescentes estão sendo negligênciados. O meu papel é, acima de qualquer coisa, garantir o bem estar das crianças e  adolescentes. Se for comprovado que eles estão sofrendo abusos ou não estão recebendo os devidos cuidados, eles são retirados imediatamente das famílias. Se a situação não for grave, trabalha-se juntamente com os pais para que seja reestabelecida a harmonia familiar.

Que conselho você daria para quem está se mudando para o exterior?

A primeira coisa a ser feita é verificar se os diplomas são reconhecidos no país onde você quer morar. Outra coisa muito importante é falar o idioma local. Queridos brasileiros mundo afora: será muito, mas muito mais dificil aprender uma língua estrangeira e se integrar na sociedade, se a preocupação maior for assistir às novelas brasileiras. Conheço casos de mulheres, cujos maridos alemães aprenderam português sem nunca terem morado no Brasil e elas não aprenderam o alemão vivendo aqui. Aprender um idoma exije disciplina e dedicação. Não basta apenas frenquentar a escola de idiomas. Acredito que esse é um ponto fundamental para se conseguir um emprego no exterior.

Uma outra recomendação para mulheres que, assim como eu, mudaram de país por um relacionamento amoroso: Tentem construir algo para si, pois em um eventual término, vocês não terão como única escolha a passagem de volta ao Brasil.