Eu me mudei para a Alemanha por causa de um relacionamento. Meu ex-namorado era alemão e nos conhecemos no Brasil, onde ele realizava estágio em uma empresa alemã. Com ele mantive um rela-cionamento de cinco anos à distância. Ao terminar a universidade na Alemanha, ele foi trabalhar no Brasil, onde vivemos mais cinco anos juntos. Depois disso, a empresa onde ele trabalhava o enviou de volta ao seu país natal e eu vim junto. O relacionamento não seguiu, mas eu acabei ficando aqui nas gélidas terras germânicas.
Ingressar no mercado de trabalho em um país estrangeiro é sempre muito dificil. Se a pessoa não domina o idioma, torna-se algo quase impossível. Portanto, o meu primeiro objetivo ao chegar foi aprender o bendito alemão. No início trabalhei como hostess em feiras. O fato de se tratar de um público internacional e de eu falar inglês, português e espanhol fluentemente ajudou bastante.
Quando já falava um pouco mais o alemão, entrei em uma empresa de seguros, cuja função era dar assistência aos segurados alemães que encontravam-se hospitalizados no exterior e solicitavam o retorno imediato ao país. Mais uma vez o fato de falar outros idiomas me ajudou muito.
Mas a verdade é que profissionalmente eu comecei tudo do zero. Fiz uma nova universidade e atuo na área de assistência social há cinco anos.
Uma das coisas que me fascina na Alemanha é a relação entre chefes e subordinados no trabalho. Aqui chefe não é um deus, portanto pode receber um não como resposta de um subordinado. Na minha primeira experiência profissional lembro-me que ficava de boca aberta ao ver a reação das funcionárias quando o chefe aparecia com mais trabalho. Elas falavam “im Moment geht nicht ” (no momento não tenho tempo). O chefe então dava meia volta sem questionar e retornava mais tarde. Eu trabalhei em outras três empresas, e o relacionamento entre chefes e subordinados não era diferente. A pausa dos funcionários, seja para tomar um café ou para fumar um cigarro, é sagrada. Eu costumo brincar que mesmo se a Chanceler alemã Angela Merkel aparecesse e solicitasse ajuda de algum deles, a resposta seria clara: “depois, agora estou na pausa”. No Brasil, ouvi várias vezes pessoas que ocupavam cargos de gerência dizerem que não frequentavam os happy hours para manter distância dos subordinados.
Outra diferença notável é que no trabalho não existe a expressão “deixa pra lá ou para amanhã”. Tudo é anotado, conversado, planejado e apurado. Eu trabalho diretamente com diversas repartições públicas e seria um sonho se algum dia tivéssemos no Brasil tanta eficiência e respeito ao cidadão como nos orgãos públicos daqui. Só não pode-se confundir cordialidade com simpatia. O funcionário público alemão é tudo menos simpático. Mas de uma coisa você pode ter certeza: o seu problema será solucionado.
Uma das primeiras recomendações que faço quando inicio o trabalho com uma família estrangeira é que não adianta omitir fatos ou vir com aquela velha história de que não recebeu o documento ou que não sabia. É só uma questão de tempo e tudo será descoberto. Se a pessoa, por exemplo, recebeu um Euro indevidamente terá que devolvê-lo.
Como trabalho diretamente com o tema educação aqui, me choca o pouco contato que os pais que trabalham fora têm com seus filhos no Brasil. Costumo dizer, que nos grandes centros do país, a educação dos filhos está terceirizada. Os pais levam os filhos dormindo para as escolinhas e os trazem para casa também dormindo. Aqui as crianças ficam no máximo até às 17 horas nas escolinhas. Muitos pais podem optar por uma carga horária de trabalho flexível. A maioria das minhas colegas, que são mães, trabalha entre 20 e 30 horas por semana.
Outra diferença grande é a forma como as crianças dos dois países lidam com regras. A criança alemã aprende desde pequena que na vida existem direitos e deveres. Ela aprende a desenvolver uma rotina familiar e a reconhecer o seu papel dentro da família.
No meu trabalho, eu encontro muita dificuldade ao tentar implementar essa estrutura em uma família latino-americana. As mães latinas geralmente associam a educação mais regrada à falta de amor e de carinho. Escuto com frequência que uma sociedade cheia de regras robotiza as pessoas. Deve ser por isso que os alemães são mais formais e menos espontâneos, mas a ausência de regras gera, na maioria das vezes, desrespeito ao próximo, mesmo na vida familiar. Se eu não cumpro com os meus deveres, alguém vai ter que fazer por mim e esse alguém será geralmente a pessoa mais sobrecarregada da família: a mãe.
Como a desigualdade social no Brasil é muito grande, o contato entre a camada social mais baixa e a mais alta existe praticamente só em forma de prestação de serviços da classe inferior à classe superior. Aqui um motorista de ônibus pode encontrar, por acaso, o seu médico jantando no mesmo restaurante ou de férias na Grécia ou na Espanha. Os filhos desse mesmo motorista frequentam muito provavelmente a mesma escola que os filhos de um diretor de empresa, já que aqui escolas particulares praticamente não existem.
Eu trabalho para o conselho de menores e há duas maneiras de chegarmos até as famílias. A mais simples delas é quando as famílias estão sobrecarregadas com questões ligadas à educação dos filhos e solicitam ajuda. A outra possibilidade é através das escolas, creches, pediatras ou denúncias. Geralmente trata-se de suspeitas de que a situação familiar não esta bem estruturada e que crianças ou adolescentes estão sendo negligênciados. O meu papel é, acima de qualquer coisa, garantir o bem estar das crianças e adolescentes. Se for comprovado que eles estão sofrendo abusos ou não estão recebendo os devidos cuidados, eles são retirados imediatamente das famílias. Se a situação não for grave, trabalha-se juntamente com os pais para que seja reestabelecida a harmonia familiar.
Que conselho você daria para quem está se mudando para o exterior?
A primeira coisa a ser feita é verificar se os diplomas são reconhecidos no país onde você quer morar. Outra coisa muito importante é falar o idioma local. Queridos brasileiros mundo afora: será muito, mas muito mais dificil aprender uma língua estrangeira e se integrar na sociedade, se a preocupação maior for assistir às novelas brasileiras. Conheço casos de mulheres, cujos maridos alemães aprenderam português sem nunca terem morado no Brasil e elas não aprenderam o alemão vivendo aqui. Aprender um idoma exije disciplina e dedicação. Não basta apenas frenquentar a escola de idiomas. Acredito que esse é um ponto fundamental para se conseguir um emprego no exterior.
Uma outra recomendação para mulheres que, assim como eu, mudaram de país por um relacionamento amoroso: Tentem construir algo para si, pois em um eventual término, vocês não terão como única escolha a passagem de volta ao Brasil.