• A China para empreendedoras

    Daniela Sena é brasileira, natural de Sergipe, Aracaju, que mora na cidade de Hangzhou, China, desde 2010, quando veio ao país com o intuito de estudar o idioma. Em entrevista, ela relata à Brasileiros Mundo Afora sua experiência no empreendedorismo, seus desafios profissionais e pessoais, sendo uma estrangeira iniciando a carreira no mundo dos negócios em um país com uma cultura distinta. Daniela é empresária e live streamer na China, vem construindo uma carreira exemplar e prova que com persistência, foco e motivação para não desistir de seus objetivos, é possível alcançar ainda mais sucesso.

    Daniela, nos fale sobre sua vinda e sua trajetória na China.

    Mudei para a China em 2010, quando ganhei uma bolsa de estudos para aprender o mandarim, na Gongshang University, em Hangzhou, e desde então trilho minha jornada neste país. Cheguei sozinha, sem saber falar inglês ou a língua local, deixando família e amigos do outro lado do mundo. Demorou cerca de um ano para eu começar a me adaptar ao país.

    O que inicialmente era para ser só um ano, tornaram-se dez, e mesmo com todas as dificuldades, decidi continuar meus estudos e mudei-me para a cidade de Suzhou, onde morei com uma família chinesa, o que impulsionou meu aprendizado e adaptação.

    Como você iniciou a sua carreira internacional?

    Em 2012, comecei a vender roupas e acessórios da China para clientes brasileiros, através da internet. Eram os primeiros passos do que, mais tarde, viria a se tornar a Continental Co., empresa que atualmente gerencio. Começamos com poucos clientes e recursos, mas a qualidade dos nossos serviços logo fez o negócio crescer com base nas boas indicações. A demanda de pessoas no Brasil, que buscavam produtos da China, só aumentava e, assim, crescia também o nosso projeto. No ano seguinte, retornei a Hangzhou e dei início ao bacharelado em Negócios Internacionais.

    Enquanto ainda estava no Brasil, conheci a chinesa Cecilia Jiang em uma plataforma online de estudo de mandarim, nos tornamos melhores amigas e sócias. Em 2014, fundamos oficialmente a Continental Comex, empresa que oferece serviços para facilitar o comércio internacional. Atendemos empresas de diversos países, auxiliando no processo de entrada no mercado chinês, assim como expansão de empresas chinesas para o exterior. Hoje, a Continental tem representantes na China,
    Hong Kong, Brasil, Portugal e África do Sul.

    Qual foi a sua inspiração para abrir seu próprio negócio na China?
    Minha independência financeira foi algo que sempre me motivou a criar e abraçar oportunidades. Na época, não consegui renovar minha bolsa de estudos para o segundo ano e precisei de alternativas de renda para pagar meus estudos aqui. Para mim, era muito importante não depender da minha mãe no Brasil, que tinha meus dois irmãos mais novos para se preocupar.

    Após seu sucesso como CEO e cofundadora, o que você considera desafiador?

    Bem interessante esta pergunta! Acredito que, por algum tempo, tive uma grande dificuldade em entender o que me trazia motivação e propósito todos os dias. Vivemos em um tempo em que mudanças acontecem muito rapidamente e tudo o que fazemos é tentar administrar as consequências, não percebendo e valorizando as coisas que de fato nos trazem alegria e satisfação.

    Hoje, exploro possibilidades do que me motiva e me traz felicidade. À medida que os projetos crescem e envolvem mais pessoas, fica mais difícil focar e priorizar o que mais gosto de fazer, me dedicando àquilo que realmente é especial para mim. Já não sou apenas eu, pois minhas decisões impactam a equipe inteira.

    Cada vez mais o comércio digital tem se reinventado para alcançar o maior número de usuários e aumentar suas vendas. O que você vê como possíveis desafios enfrentados por mulheres no marketing digital?

    Vejo o marketing digital de uma maneira bem positiva! Muitas mulheres com diferentes formações, muitas vezes vindas de locais e situações sem privilégio algum podem, através dele, trabalhar de casa, com baixo investimento, trazendo mais dinâmica e flexibilidade para suas vidas profissionais. Os aspectos negativos do marketing digital são a exposição, o julgamento e o assédio na internet, para citar apenas alguns dos maiores desafios enfrentados por nós que trabalhamos com essas ferramentas.

    Muitas pessoas sentem-se à vontade para comentar ou deixar opiniões mesmo que ofensivas, sem nenhuma base ou crítica construtiva, podendo atingir negativamente e impactar o psicológico com grandes consequências.  É necessário ter uma cabeça aberta e uma imensa vontade de vencer para ignorar tais desafios.

    O que fez você criar a SheUp Community? Como incentivar mais mulheres a seguir o empreendedorismo como carreira?

    Minha experiência como empreendedora na China, ao longo destes anos, foi o ponto de partida para criar a SheUp, uma plataforma que conecta mulheres empreendedoras mundo afora. Já contamos com mais de mil membros de 65 nacionalidades diferentes. O objetivo da SheUp é inspirar, encorajar e auxiliar mulheres que enfrentam diariamente os mesmos desafios.

    Especificamente para as mulheres na China, quais são as maiores dificuldades para subir na carreira, em relação aos homens?

    Depende do tipo de ocupação. Em algumas posições, as mulheres são mais propensas a serem promovidas do que os homens, uma vez que as mulheres modernas estão mais envolvidas em setores gerais, desde vendas à finanças, contabilidade, recursos humanos e outros setores importantes. Na nova estrutura do mercado chinês, existem mais líderes do sexo feminino e as chinesas têm melhorado suas habilidades mais abrangentes, facilitando sua promoção e ascensão.

    Você acredita que as políticas de incentivo estão fazendo diferença para a redução de equidade de gênero? Na sua visão, quais são os desafios que ainda precisam ser enfrentados?

    Certamente, existe sim, valor e resultados visíveis das políticas de incentivo e, na minha opinião, um dos pontos positivos é a criação de uma nova cultura no pensamento coletivo. Por exemplo, a próxima geração está vendo muito mais mulheres numa situação de poder do que a minha geração presenciou. Esta representatividade tem muito impacto. O maior desafio, porém, é que o processo de mudança na mentalidade comum não acontece tão rápido quanto gostaríamos, portanto, me sinto muito motivada a continuar reunindo mulheres que inspirem e instiguem, para que essa representatividade motive futuras líderes.

    Qual a mensagem que você quer deixar para todas as mulheres que desejam seguir uma carreira internacional?

    O incentivo das pessoas a minha volta, que acreditaram sempre em mim e nos meus projetos, principalmente minha sócia e amiga Cecilia Jiang e minha mãe, contribuiu imensamente para o meu sucesso. Além disso, sou muito persistente e não desisto rápido.

    Estou realmente feliz pela oportunidade em compartilhar com vocês a minha jornada que me auxiliou a ser quem eu sou.

    Para todos que buscam um sonho, eu lhe pergunto por que esperar para dar o primeiro passo? Planeje, dedique-se, persista, supere os contratempos e abrace as oportunidades.

    Encontre Daniela Sena em outras mídias:

    Instagram: @daniinchina @continental.co @sheupcommunity @dici.cosmetics @danilivebr

    LinkedIn: Daniela Sena no LinkedIn

    Mango TV: participação especial de Daniela Sena em reportagem sobre a China

    GlobaLink: Daniela Sena falando sobre a Zona Franca de Hainan, sul da China.

    THE WALL STREET JOURNAL DIGITAL NETWORK: matéria sobre e-commerce na China

    Entrevista para o site “Só Sergipe”

    Texto e revisão: Rachel Mezaros

  • Ciclismo: pedalando mundo afora

    O ciclismo é um esporte que ganha cada vez mais adeptos mundo afora. Desde 2020, com a chegada da pandemia, a bicicleta ganhou destaque como meio de transporte ideal para evitar aglomerações nos transportes públicos. Nos últimos dois anos, foi registrada uma explosão em suas vendas, assim como de bike trainer, usado para a prática do esporte em casa, principalmente devido às restrições impostas durante a pandemia. Para o brasileiro Alexandre Tavares Mezaros, 45 anos, natural de São Bernardo do Campo, São Paulo, nada disso é novidade, pois o ciclismo faz parte de sua vida desde criança. Ele saiu do Brasil em 2006, para trabalhar no sul da Alemanha e, desde 2015, mora com sua família na China. Em breve, retornarão a Europa, finalizando sua jornada como expatriados no país. A seguir, ele relata sobre sua trajetória e sua paixão pelo ciclismo, dividindo conosco sua experiência como ciclista e dando dicas para quem quer iniciar o esporte.

    “A minha paixão pelo ciclismo começou quando eu era ainda bem pequeno. Meu pai mantinha sua bicicleta Peugeot pendurada em uma parede da nossa casa e eu sempre tive vontade de subir nela, sair por aí e sumir. Ainda hoje, me lembro da minha bicicletinha cor de abóbora, que despertava em mim a vontade de explorar caminhos, subir montanhas e ir longe. Desde muito jovem, eu usava a bicicleta como meio de transporte e fiz inúmeros passeios e a completar algumas trilhas. Por falta de tempo, fiz uma longa pausa quando ingressei na faculdade, mas após minha graduação, retomei o ciclismo. Com o desenvolvimento e experiência no trabalho, dentro de uma empresa multinacional alemã, tive a oportunidade de sair do Brasil, e a prática do ciclismo tornou-se mais intensa, pois a Alemanha incentiva esse esporte, assim como o uso da bicicleta como meio de transporte. Existem muitas trilhas, inúmeros caminhos entre cidades e paisagens de tirar o fôlego, além de ser saída para tantos outros países que promovem a prática desse esporte.

    Ciclismo: paixão e saúde

    Hoje, pedalar é imprescindível para manter meu bem-estar físico e mental. Os benefícios do pedal são vários, englobando a promoção da saúde em diferentes aspectos, pois além de fortalecer e tonificar o corpo, desenvolver resistência e força, estar sobre duas rodas me permite espairecer, desestressar, me sentir bem comigo mesmo. É um compromisso que estabeleci na minha vida e impactou diretamente no meu dia a dia. Quando fico alguns dias sem andar de bicicleta, meu humor muda e minha esposa até brinca — “já andou de bicicleta hoje?”. Geralmente quando estou impaciente e irritadiço, ela me lembra que “já passou da hora”, que preciso pedalar novamente.

    O ciclismo é uma verdadeira paixão para mim, representando liberdade de ir e vir, além de ser uma oportunidade de testar meus limites.

    Não tenho preferência entre mountain bike (ciclismo voltado para trilhas em meio à natureza) ou road bike (ciclismo voltado para longas distâncias e velocidade). Atualmente, a modalidade Gravel, me desperta maior interesse, pois une os dois mundos desse esporte e permite maior versatilidade. Nesse caso, a bicicleta é estruturada com design próprio para suportar longas distâncias sem a necessidade de permanecer em estradas, ou seja, combina design e conforto para explorar trilhas mais longas.

    Ciclismo na China

    Na China, pratiquei o ciclismo sempre que pude, tendo oportunidades de descobrir novos lugares, participar de corridas e também de conhecer muitas pessoas com a mesma paixão e interesse. No início da minha jornada por aqui, tudo era novo e se apresentava interessante, mas depois de um tempo me aventurando não me sinto muito seguro com a loucura do trânsito no país. Infelizmente, mesmo após tantos anos percorrendo diferentes países, ainda me surpreendo com a falta de respeito para com os ciclistas, os amadores em especial, vindo particularmente de motoristas de carros e bicicletas elétricas (e-bikes). São inúmeras as situações que presenciei durante minhas pedaladas, de manobras perigosas e acidentes, e sem generalizar, imprudência de alguns ciclistas também. Minha prática, hoje em dia, é quase que totalmente voltada ao ciclismo indoor, assim posso focar minha atenção no treino e tudo que o envolve (controle de tempo e velocidade, resistência, desenvolvimento e aperfeiçoamento), sem desviar a atenção, preocupando-me com carros, motoristas imprudentes ou ruas mal sinalizadas.

    Para os ciclistas que preferem praticar outdoor, existem lugares bonitos e interessantes na China para se explorar. Minha única ressalva é que há poucas trilhas disponíveis para mountain bike, uma vez que as possibilidades próximas às grandes cidades estão em parques que não permitem a entrada de bicicleta, restringindo o esporte à road bike.

    Outra alternativa, talvez até mais interessante para ciclistas amadores ou mesmo àqueles que usam a bicicleta como lazer ou meio de transporte, é a bicicleta elétrica. Para mim, é um nicho com potencial, principalmente no que diz respeito ao incentivo às pessoas de mais idade no uso da mesma, tanto para se locomoverem como na praticidade ao irem às compras e passeios, por exemplo. Eu e minha esposa compramos as nossas exatamente para facilitar essas atividades do dia a dia e tornar o percurso mais ágil.

    Desafios

    Você me perguntou sobre o maior desafio que vivenciei com o ciclismo. Diria que foi a possibilidade de construir minha própria bicicleta, comprando as peças, pesquisando o que se adequaria melhor ao que eu queria, pensando em todos os detalhes. Pude realizar esse projeto aqui na China e, hoje, posso afirmar ser a bicicleta mais confortável que possuo.

    Aqui na China, dos lugares que pedalei, eu destacaria a região do Lago de Suzhou e, especialmente, as Montanhas Amarelas, Huangshan, onde a paisagem é muito bonita e o caminho de bicicleta é um pouco mais desafiador, longe da loucura do trânsito. Acredito que em várias regiões do país existam caminhos para se explorar, pequenas vilas, cenários interessantes como os arredores de Nanquim, província de Jiangsu, onde moro. Vale lembrar que várias agências de viagem organizam passeios ciclísticos por toda a China, o que é uma boa alternativa para conhecer diversas regiões desse imenso país.

    Trânsito consciente

    Hoje, o ciclista urbano enfrenta muitas dificuldades como o uso da faixa compartilhada, vias com buracos, possibilidade de acidentes, e vale ressaltar, que a responsabilidade que esse meio de transporte exige para um trânsito seguro não depende somente de quem pedala.  Métodos inovadores surgem cada vez mais nas grandes cidades, como ciclovias, ciclo faixas, vias preferenciais para bicicleta, vias com tráfego acalmado. Apesar de ser totalmente a favor da prática do ciclismo como esporte e o uso de bicicleta como meio de transporte, na minha opinião, somente aumentar o investimento na construção de ciclovias não seria a solução para uma vida urbana mais ecológica, sustentável e segura. Penso que um investimento maior na educação para um trânsito mais consciente, respeito ao espaço do ciclista e à sinalização de forma adequada e responsável são imprescindíveis para o sucesso de um projeto complexo que vai muito além da construção de ciclovias. Essa educação deve inciar-se nas escolas, como já é implementado em muitos países europeus. Gostaria de citar a Alemanha país para onde retornarei, após a minha estadia aqui na China.

    O teste de ciclismo voluntário alemão é a licença de bicicleta como primeira carteira de motorista para todas as crianças com 10 anos e todos os alunos do quarto ano. Após concluírem o curso, têm direito a andar de bicicleta na via pública sem o acompanhamento de um adulto antes de atingirem 12 anos. A prova de bicicleta está inserida como conteúdo de aprendizagem na grade curricular para o ensino da disciplina. A participação no treinamento de ciclismo é, portanto, obrigatória.

    Outro fator importante é o desenvolvimento de infraestrutura no transporte público que acomode as bicicletas. Alguns países da Europa incluem o transporte de bicicletas em trens e disponibilizam espaços seguros em estações de ônibus ou em pontos de transição entre meios de locomoção.

    Simplesmente investir na construção de ciclovias sem que as pessoas e as cidades estejam adequadamente preparadas para suportar a quantidade de ciclistas, provavelmente geraria maiores problemas do que benefícios.

    Para iniciantes no ciclismo

    Minha maior recomendação para os que têm vontade de iniciar nesse esporte, é que invistam em um bike fit, um profissional que fará uma avaliação completa das suas medidas, posição e estrutura. É importante que o aspirante à ciclista tenha conhecimento do seu corpo e saiba fazer as melhores escolhas quando for comprar uma bicicleta. Esse é um ponto muito importante, na minha opinião, pois muitas pessoas desistem de praticar o ciclismo por não terem dedicado um certo tempo à aquisição dessas informações antes de sair pedalando.

    Alexandre com sua família na China.

    Ler, estudar e pesquisar sobre o assunto fazem toda a diferença para o sucesso dessa prática, mesmo para quem não pretende se tornar um ciclista profissional.

    Deixo aqui algumas sugestões para quem está pensando em iniciar nesse esporte:

    • Assista a vídeos disponíveis no Youtube, de acordo com a modalidade de interesse, pois há uma infinidade de informações disponíveis na internet.
    • Pesquise informações em sites especializados em ciclismo. Recomendo www.cyclingweekly.com, cyclingtips.com, zwiftinsider.com.
    • Instale um aplicativo, através do qual é possível fazer e copiar rotas de outros ciclistas, também usado como rede social e para acompanhar o desenvolvimento e progresso da forma física. Recomendo o Strava.
    • Zwift é um aplicativo de treino em casa que inclui exercícios e rotas que simulam pedaladas ao ar livre e percursos virtuais, mais direcionados aos que já estão inseridos no esporte e têm interesse em praticar em ambiente fechado (indoor). Para isso, é necessário um rolo de treino, acessório preso à roda traseira da bicicleta.
    • Rotina. É importante estabelecer uma rotina de treino que se adapte ao seu estilo de vida. Minha rotina no esporte está equilibrada entre quatro a cinco vezes na semana para a prática do ciclismo, combinada com o mínimo de duas vezes de corrida, assim como três a quatro vezes de musculação.

    O ciclismo é uma grande paixão, ocupa um lugar importante na minha vida e as bicicletas são minhas companheiras fiéis independente, do país em que me encontro. É um esporte desafiador, mas que abre um leque de oportunidades para quem gosta de explorar, descobrir novos caminhos e lugares, desafiar-se e entender os próprios limites.

    Desejo a você ótimas pedaladas mundo afora!”

    Entrevista e revisão: Rachel Mezaros

  • Família na China  – os desafios da pandemia

    A pandemia chegou com tudo e transformou a vida de muitas famílias por todos os lugares do mundo, assim como a de Larissa, Gogue e dos dois filhos, Arturo e Nina, 12 e nove anos respectivamente. Eles são uma família brasileira que vive na China e passaram pela dificuldade de ficarem separados por 11 meses, em consequência da política de “tolerância zero” imposta pelo governo contra o coronavírus. Em setembro do ano passado eles vivenciaram o tão esperado reencontro em Ningbo, cidade onde residem. A seguir, Larissa relata sobre sua trajetória, os desafios de morar na China em tempos de pandemia, como foi o processo de retorno do marido ao país e sobre as lições adquiridas nesse período tão desafiador em que ficou sozinha com os filhos.

    “Quando morávamos no Brasil, eu trabalhava como professora de educação física na Escola Americana de Brasília. Meu marido Gogue tinha um foodtruck e um restaurante mexicano. Em 2016, após finalizar o meu mestrado em educação, decidi explorar o mundo com minha família, mas só consegui iniciar a busca de emprego no ano seguinte. Confesso que nunca pensei em morar na China, um lugar tão distante e desconhecido, mas ainda assim acreditei que seria uma boa ideia e resolvi enviar meu currículo para uma escola internacional em Ningbo. O incentivo do meu marido foi essencial para me candidatar a esse emprego e o resultado foi que logo assinei o contrato. Nos nove meses seguintes fechamos o restaurante, vendemos e doamos muitas coisas, alugamos a nossa casa. Depois de 19 anos trabalhando no mesmo lugar, eu estava fechando um longo capítulo da minha vida para iniciar uma nova aventura com minha família. Chegamos na China no dia 20 de agosto de 2018. 

    Vida internacional

    Nasci em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, cidade conhecida como um dos principais portais do Pantanal. Meu pai era militar e, quando eu tinha seis anos, mudamos para Londres, uma experiência que transformou completamente a minha visão de mundo. Fui alfabetizada em inglês e, apesar de falar português com minha família enquanto morávamos na Inglaterra, o meu tempo na escola era longo, o que me fez esquecer muita coisa da minha língua materna. De volta ao Brasil, minha mãe teve receio da minha adaptação na escola brasileira e decidiu que eu repetisse a segunda série, o que logo nos primeiros meses mostrou-se desnecessário. Hoje, por experiência pessoal e profissional trabalhando em escolas internacionais, tenho a oportunidade de aconselhar pais de alunos sobre esse assunto. É natural que eles se preocupem, mas posso dizer que as crianças geralmente se desenvolvem com extrema facilidade e rapidez em um novo ambiente, surpreendendo a si e à família.

    Costumo dizer que a vida internacional é viciante. A vontade de viajar, enfrentar novos desafios e conhecer culturas e lugares diversos, só aumenta. Na minha opinião, após a China, onde as diferenças culturais são enormes e a barreira da língua desafio diário, poderemos morar em qualquer outro lugar com facilidade. Foi muito importante oferecer essa oportunidade para que meus filhos aprendam que a verdadeira beleza do mundo está nas diferenças. Um dia eles vão entender melhor e espero que valorizem esse tempo que vivemos aqui.

    Saída da China e o difícil retorno

    Temos uma pequena propriedade em Goiás e em outubro de 2020, Gogue precisou ir até lá resolver questões inadiáveis na nossa fazendinha. Sabíamos das dificuldades de se regressar à China, mas nunca imaginávamos que esse processo seria extremamente complicado.

    Em abril de 2021, começamos a organizar o seu retorno. Sabíamos que tomar a vacina facilitaria o processo de entrada no país, por isso ele tomou duas doses em Brasília. Decidimos que ele tentaria entrar através da Tailândia, e de acordo com experiências de outros brasileiros que tiveram sucesso fazendo esse mesmo caminho, era necessária uma permanência minima de 30 a 40 dias no país. Após a quarentena em Phuket, começamos uma nova saga, a fase mais crítica. Gogue viajou para Bangkok com o propósito de aplicar para o código de autorização na Embaixada da China para poder embarcar, pois, na situação atual, apenas esse código autoriza o embarque. Foram quatro tentativas até ser aprovado. 

    Tínhamos feito tudo que a embaixada solicitou, todos os comprovantes, documentos, intermináveis testes negativos de coronavírus estavam em mãos e, ainda assim, eles tinham todo o poder de nos negar o código. Enfim, dia 17 de agosto ele embarcou em Bangkok com destino a Xangai, aterrizando em terras chinesas no mesmo dia. Após cumprir 14 dias de quarentena em Xangai e mais 14 dias na nossa casa, em Ningbo, no dia 16 de setembro, enfim, pudemos nos abracar novamente!

    Desafios

    Durante esse tempo, vivenciei vários desafios. Somos uma família muito unida, e além da saudade que sentimos dele como pai e marido, sofremos com a enorme falta que o Gogue fez como parceiro no dia a dia. Ele auxilia as crianças nas tarefas de casa, afazeres domésticos e é quem providencia as refeições. Continuei trabalhando normalmente de segunda a sexta-feira. Há algo extremamente prático aqui na China: fazer compras por aplicativo. Nada como escolher os produtos do conforto do seu lar e receber com segurança e rapidez. Essa ferramenta me ajudou muito durante o tempo que cuidei sozinha das crianças. Sentirei falta disso!

    Nesse período, fiquei bastante sobrecarregada, mas permaneci firme praticamente o tempo todo. Eram raros os momentos de fraqueza, até porque eu precisava ser forte para as crianças. Eu procurava manter o pensamento e o comportamento positivos, isso deixava o clima leve. Procurei também ser mais prática e simplificar a nossa vida, além de usar os aplicativos com maior frequência, também comecei a fazer comida para dois ou três dias. Durante esse tempo, dormi pouco tentando conciliar a vida profissional e familiar. Lembro-me das inúmeras vezes que fiz video call com o Gogue de pijama, era a minha hora de dormir e no mesmo momento ele almoçava no Brasil. Conversávamos até eu adormecer.

    Não há como negar que a tecnologia ajuda demais, mas nada se compara a presença física, o toque, uma conversa olho no olho e um abraço.

    No inverno, minha cama ficou grande demais e gelada, então inventamos uma nova regra: Arturo e Nina poderiam dormir comigo nos finais de semana. Eles deram pulos de alegria, mas, no fundo, quem ficou mais feliz fui eu. Procurávamos manter a cabeça ocupada e o corpo em movimento para não dar lugar à tristeza. As crianças continuaram indo para a escola e eu trabalhando. A nossa vida social ficou mais agitada, participamos de muitas reuniões com os amigos, convidamos pessoas para visitarem nossa casa. Arturo machucou o joelho jogando futebol e não conseguia andar sem sentir dor, mas nem isso nos impediu de viajar. Consegui uma cadeira de rodas emprestada e fomos a Disney com a turma da escola e também viajamos para Wuhan. Embarcamos para Pequim, após o final do ano letivo, em junho e, depois disso, seguimos viagem para outras cidades, que fazem parte da rota da seda.

    Viajar é uma das minhas grandes paixões e os meus filhos são meus companheiros de aventuras, topam tudo e isso me traz uma alegria enorme! Viajar juntos nos uniu ainda mais.

    Futuro

    Não sabemos ao certo quanto tempo ainda ficaremos na China, mas a possibilidade de irmos embora existe e não deve demorar. A situação atual não nos permite viajar com liberdade para o exterior ou para muitas cidades na própria China. Não há como planejar o futuro e as regras mudam com grande frequência, às vezes diariamente. O país segue com sua política “tolerância zero” contra o coronavírus, com as fronteiras ainda fechadas e regras internas rígidas quando algum caso se manifesta. Está cada vez mais difícil ficar tanto tempo distante da nossa família no Brasil e este é o argumento mais forte de querermos nos mudar daqui. Gostaríamos de morar em um lugar onde teremos o direito de ir e vir, desde que com segurança, claro!

    O maior aprendizado que tivemos nesse período foi que não queremos mais nos separar. Podemos estar em qualquer lugar do mundo, em qualquer país, com qualquer situação financeira, mas precisamos estar nós quatro. Sentimos que, juntos, conseguimos enfrentar qualquer dificuldade.”

    Quero deixar os meus agradecimentos:

    Primeiramente a você, Claudia. Obrigada por se interessar pela nossa história e compartilhar de maneira tão bonita. Quem sabe, isso vá ajudar outras famílias que estejam nessa situação. Não desejo que ninguém passe por essa dificuldade. Muitas pessoas do Brasil, China e Austrália nos deram um suporte fundamental nessa etapa. Citarei os nomes aqui e espero não esquecer de ninguém:

    Luciana Medeiros, Claudia Mota, Crisson Prado, Ana Eunice Prado, Joaquim Brasil Neto, Edburgo Soares Filho, Stephanie Chang, Claudia Alves, Roberto Alves, Glaucia Lanzoni, Flavio Minoru e 木杉.

    Um obrigado especial ao guardinha de trânsito que salvou o Gogue dando carona de moto num momento de aperto em Bangkok. Gostaria muito de saber o nome dele.

    Obrigada, amigos e família! Agradeço também a todos que enviaram palavras de conforto e motivação. Isso ajudou demais! A vocês, o meu amor e minha gratidão. Larissa ❤

    Encontre Larissa, Gogue, Arturo e Nina no Instagram: @familianachina

    Revisão de texto: Rachel Mezaros

  • Resoluções de Ano Novo

    A cada final de ano, o sentimento de querer mudar algo na vida atual, iniciar ou reiniciar projetos e de tomar novas decisões, ressurge. A lista de desejos e intenções é infindável. Nessa época, geralmente as pessoas fazem um balanço de suas vidas e planejam quais mudanças querem implementar no futuro. Podemos dizer que as resoluções de Ano Novo fazem parte da cultura popular, podendo variar de pequenas mudanças a metas mais elevadas.

    O que torna o final de ano em um momento mágico para mudanças?

    Quando trata-se de definir metas, nós preferimos marcos temporais como aniversários e Ano Novo que nos parecem os momentos ideais para se pensar em grandes mudanças na vida.

    Por que é difícil transformar estes planos em ação?

    Para todos nós é um desafio traduzir metas em ações. É fácil formular um plano, mas relativamente difícil implementá-lo e ainda mais desafiador manter uma mudança.

    Pessoas que traçam metas de final de ano, também podem ser vítimas da “síndrome da falsa esperança”. Esta caracteriza-se pelas expectativas idealizadas sobre a provável velocidade, quantidade e facilidade das realizações de mudanças comportamentais. Para algumas pessoas, é necessário um acontecimento radical, como um diagnóstico médico, para que uma mudança de hábito aconteça e permaneça. Não é impossível tornar as resoluções de Ano Novo em realizações, mas a grande maioria persiste somente nos primeiros meses. As dificuldades da realização e manutenção dos objetivos traçados, tem relação direta com as metas elevadas que estabelecemos para nós mesmos, além de outros fatores que veremos a seguir.

    Como conseguir manter as metas de final de ano?

    As resoluções mais comuns propostas para o novo ano são perder peso, se exercitar mais, parar de fumar, economizar dinheiro, assim como viajar com maior frequência. Segundo diversos estudos, a principal razão das pessoas não cumprirem suas promessas é a falta de estratégias para alcançar os objetivos, a ausência de disciplina, a intolerância com a demora de resultados de médio e longo prazo e o desperdício de tempo através da distração com as redes sociais.

    Para se mudar o comportamento no dia a dia, é preciso mudar também o pensamento e, para isso tente começar pelos seguintes modos de pensar e agir:

    • Seja realista. Você precisa elaborar resoluções que possa cumprir e que sejam práticas.
    • Faça uma coisa de cada vez. Um dos caminhos mais fáceis para o fracasso é ter muitas resoluções ao mesmo tempo.
    • Defina metas específicas, mensuráveis, alcançáveis, realistas e com limite de tempo.
    • Compartilhe com alguém a sua resolução. Não tenha receio de pedir ajuda para alcançar seus objetivos e metas.
    • Aceite recaídas. É inevitável que ao tentar desistir de algo (cafeína, mídia social, junk food), haja lapsos. Recaídas fazem parte do processo de aprendizagem, mas não são desculpas para se desistir.
    • Lembre-se que não existem soluções rápidas para grandes mudanças no estilo de vida.
    • Não espere por uma data especial, você pode mudar seu comportamento em qualquer época do ano.

    O que vou falar pode ser clichê, mas é sempre atual: aprendemos com nossos erros e cada dia é uma nova oportunidade para se recomeçar.

    Desejo uma excelente entrada no ano que está por vir, cheio de realizações de metas e muitas mudanças positivas.

    Lila Rosana

  • Filhos e o consumo consciente no Natal

    O Natal é uma data religiosa, mas sua comercialização está enraizada na nossa cultura. O consumo natalino reforça a ideia de que as crianças precisam ser boas para receber o que desejam.

    A visão distorcida desta época continua inabalável a cada Black Friday, que acontece um mês antes do Natal e o Boxing day, que acontece um dia após o Natal, tradicionais nos Estados Unidos e Canadá e têm conquistado cada vez mais o mundo. Essas datas nos mostram a preocupação comercial em vender os mais variados produtos dentro de um curto espaço de tempo. Em muitos lugares, as pessoas literalmente enlouquecem. 

    Gostaria de sugerir algo diferente: que tal aproveitarmos essa época para trabalharmos com os filhos conceitos de educação para consumir menos, conversar sobre administração financeira e principalmente sobre  solidariedade e desapego?

    Será que filhos precisam realmente de tantos presentes?

    O que experimentamos quando abrimos um presente, além do elemento surpresa? Sentimos uma emoção positiva de curta duração. Ao abrirmos os muitos pacotes no Natal, essa ação ativa o sistema de recompensas em nossos cérebros em um nível superficial, que não fornece sentimentos de felicidade mais profundos e de longo prazo. Os pais devem pensar sobre como a cultura do consumo influencia os filhos, sendo importante ressaltar a possibilidade de dar presentes baseados em experiências ao invés de simples bens materiais.

    Mudança de hábito

    Na minha opinião, o conceito de dar e receber presentes não precisa ser eliminado da relação entre pais e filhos, mas precisa ser revisto, pois não é a única demonstração de amor possível em datas comemorativas. Devemos pensar que presentes, além de felicidade e alegria imediatas, também podem nos trazer sentimentos mais significativos como amor, conexão e desenvolvimento do consumo consciente. 

    Como desenvolver uma diferente cultura de dar e receber presentes?  Aqui estão alguns conselhos práticos:

    • Tradições familiares: estabeleça tradições familiares com valores que você deseja que seus filhos associem ao feriado. Presenteie com uma experiência e explique como ela se alinha com algo que sua família valoriza.
    • Investimento próprio: quando as crianças tiverem idade suficiente para fazer as coisas sozinhas, você pode oferecer-lhes mais liberdade para pedir o que desejam, mas eles também devem contribuir com isso. Se seu filho quer visitar um amigo do outro lado do país, por exemplo, pague os voos, mas ensine-o a economizar para levar seu próprio dinheiro para usar na viagem.
    • Presentes baseados em experiências: você pode dar presentes materiais ligados à experiências, para que seus filhos possam desembrulhar algo. Se eles gostam de esquiar, você pode comprar um passe para a temporada de esqui ou itens que eles precisem para aproveitar o tempo na montanha. 
    • Faça você mesmo: incentivar as crianças a criar os próprios presentes para amigos, familiares e professores é uma excelente maneira de mostrar que o  verdadeiro valor de um presente não está em quanto custou, mas com quanto amor e dedicação ele foi feito.
    • Presentes de acordo com a situação financeira: é preciso ter coerência nas decisões sobre a escolha dos presentes, e eles precisam corresponder à condição financeira da família. Endividar-se para dar um presente nunca será uma boa alternativa.
    • Consumo consciente: mesmo quando a carência financeira não é um problema, é fundamental conversar e conscientizar os filhos sobre seus valores, desejos e necessidades. Formar um consumidor consciente é um importante aspecto da educação de filhos.

    Ao invés de dar presentes aleatórios ou simplesmente baseados no consumo temporário, invista em proporcionar momentos únicos neste Natal. A vida por si só já é um enorme presente e criar memórias incríveis com quem amamos é algo imbatível.

    Depoimentos de pessoas mundo afora sobre como presenteiam no Natal.

    “Sou mãe de um menino de seis anos. No nosso Natal, seguimos o exemplo que tive de meu pai. Logo no início de dezembro, fazíamos uma carta para o Papai Noel, onde eu escrevia sobre os meus feitos do ano e pedia meus presentes. Papai Noel atendia (provavelmente o que meu pai poderia arcar!) e deixava os presentes na árvore na madrugada de 24 para 25 de dezembro. Meu irmão e eu acordávamos super eufóricos para abrirmos os presentes. Era uma alegria! Assim faço com meu filho: escrevemos uma carta para Papai Noel e na manhã do dia 25, Joaquim acorda para abrir os presentes. Não temos métrica de merecimento, mas temos limites financeiros e uma regra válida para o ano todo, em qualquer ocasião: entrou um brinquedo, sai outro, assim como roupas ou livros. Normalmente doamos o que o Joaquim já não tem mais interesse, dando a oportunidade a outras crianças de aproveitarem presentes ainda em excelentes condições.” Luana Gether

    “Amo a magia do Natal! Meus filhos têm cinco e sete anos e ainda acreditam que Papai Noel traz os presentes. Temos a tradição de escrever uma cartinha e colocá-la na meia de Natal, que “desaparecerá” no outro dia.  Na noite do dia 24, colocamos biscoitos e leite para Papai Noel e no dia 25 a magia do Natal acontece, quando o leite foi tomado, os biscoitos foram mordidos (por mim) e os presentes encontram-se embaixo da árvore. Na nossa casa, as crianças podem fazer três pedidos, sedo que o Papai Noel trará somente um. Tenho horror a dar um monte de presentes e depois eles não dão valor. Como somos apenas nós quatro, eles só têm estes presentes que damos, não ganham dos avós e outros familiares. Durante o ano, eles ganham outros presentes, como de aniversário ou se fazem algo que mereçam muito. O meu filho mais velho estava com dificuldades em leitura e, com muito esforço, ele conseguiu melhorar bastante até não haver mais a necessidade de fazer aulas de reforço. Neste dia, ele pôde escolher um presente. Vale ressaltar que sempre que eles ganham algum brinquedo, falo que temos que nos desfazer de outro, estando livre para decidir o que doar.” Vanessa Montagner

    “Tenho dois filhos, um menino de sete e uma menina de 15 anos. Aqui, comemoramos o Natal basicamente como no Brasil, na noite do dia 24 e no dia 25. Não tenho o hábito de comprar presentes de Natal e nem de perguntar-lhes o que querem ou gostam. Ao longo do ano vou percebendo o que eles querem e precisam, não compro coisas caras e nem vou em lojas com eles para escolherem presentes. Gosto de comprar o que tenho vontade, o que percebo que será bom para eles, pois não quero que entendam que o Natal é sobre presentes. Sou cristã e ensino meus filhos sobre a partilha. Doamos em instituições de caridade os brinquedos e objetos que não são mais usados na nossa família, mas que podem ser úteis para outras pessoas. Temos o habito de revender o que não precisamos ou não utilizamos mais. Não temos a cultura do consumo dessa época natalina. Até mesmo a nossa ceia natalina é algo muito simples, pois sabemos que muitas pessoas não têm o que comer, então praticamos essa conscientização aqui em casa. Não gosto de ensinar que nessa época nos “entupimos de comida”. Falo para eles sobre Jesus e seu nascimento e que ele nasceu numa manjedoura simples. Essa é uma mensagem de Natal muito importante para mim e quero transmitir para as pessoas, nessa época.” Patricia Karagulian

    “O nosso Natal é bem tradicional. Comemoramos todos os Adventos com jantares em família e meus filhos são acostumados a cantar músicas e encenar peças natalinas, geralmente na casa da avó, e se envolvem muito nas preparações das festas de final de ano. Além disso, eles escrevem cartas para os membros da família, não havendo a necessidade de irem comprar presentes. Geralmente, eles nos presenteiam com seu tempo, ajudando mais nos afazeres domésticos, por exemplo. Em relação aos presentes, penso que somos bem generosos. Durante o ano, eles não ganham coisas sem razão, então o Natal é a oportunidade deles encontrarem embaixo da árvore o que muito desejam. É sempre uma noite muito especial. Cozinhamos juntos, colocamos a mesa bem bonita, cantamos, jogamos e nos damos os esperados presentes.  Elisabeth Meier

    “Na minha casa, só presenteamos com eventos: teatro, balé, jogos diversos, cinema. Nem sempre foi assim, mas eu insisti muito e, enfim, todos na família aceitaram. A experiência vivida junta é sempre inesquecível, até mesmo quando nem tudo dá certo. Não se compara com presentes que abrimos às vezes somente por abrir. Indico para todos.” Miriam Neuenburger

    “Meu filho pode escolher fazer coisas no Natal que quase nunca é permitido. Comer uma sobremesa fora de hora, assistir televisão até mais tarde, dormir ou acordar quando quiser. Gosto de presentear com passeios comigo que ele mesmo pode escolher. Sou mãe solteira e sinto que isso nos conecta bastante. Também gosto de dar presentes para que  ele desembrulhe. Penso que um mix de presentes é o caminho certo. Nada radical demais.”  Marcella Arantes

     

    Texto de Lila Rosana   

    Foto de Claudia Boemmels

  • Uma casinha de Natal muito original
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    Não se sabe ao certo sobre a origem das populares casinhas da bruxa confeitadas no Natal, originais da história de João e Maria (Hänsel und Gretel, em alemão). Já em novembro, as padarias alemãs oferecem casinhas de incrível criatividade. Sua  popularidade provavelmente deve-se ao Lebkuchen (pão de mel) o material perfeito para se construir essas casinhas deliciosas!  O Lebkuchen é um doce típico natalino, consumido em muitos países europeus nesta época. Nos mercados de Natal, encontram-se muitos bolos em formato de coração com diversos dizeres e decorações. Kuchen significa “bolo” — daí vem o nome “cuca”, utilizado para definir alguns tipos de especiarias das regiões de colonização alemã, no sul do Brasil. Na Alemanha, muitos supermercados vendem os conjuntos já prontos, mas também é possível fazer você mesmo.

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    A seguir,quero mostrar uma variação fácil da “casinha da bruxa” feita com biscoitos de leite. Um sucesso entre as crianças! 

    O que você precisará para fazer 10 casinhas: 

    • 30 biscoitos em formato retangular;
    • Smarties, ursinhos de goma, corações de chocolate e outros doces para decorar;
    • Glacê ou chocolate derretido para cobrir o teto da casinha;

    O glacê é essencial para “colar” uma parte na outra. Os ingredientes são: 

    • 250 gramas de açúcar de confeiteiro;
    • 2 colheres de sopa de suco de limão;
    • Uma clara de ovo;
    • 1 colher de sopa de água.

    A preparação do glacê: coloque em uma tigela o açúcar, o suco de limão, a clara de ovo e acrescente a água devagar. Pode ser que você precise colocar uma colher a mais ou a menos até a mistura formar uma pasta consistente. Com o glacê pronto, você poderá “colar” os biscoitos um no outro.

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    Modo de preparar: em primeiro lugar, decore os biscoitos que serão o teto e o chão. Você pode cobri-los com chocolate derretido ou com o próprio glacê. O próximo passo é a parte mais divertida: decorar os biscoitos. Use sua criatividade! Depois, deixe-os descansar até que a cobertura seque. Você pode acelerar o processo colocando-os no freezer por 10 minutos. Está pronta a sua casinha de Natal!  

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  • Viajando pela China com Low

    Low, como prefere ser chamada, é uma espanhola de 43 anos, natural de Vigo, cidade situada na Galícia, que vive na China desde 2016. No seu perfil do Instagram, ela compartilha com seus mais de 13 mil seguidores, fotos e vídeos de suas viagens, explorando uma China pouco conhecida no exterior. Suas publicações contêm reflexões interessantes e muita informação, visando compartilhar conhecimento sobre o país. A seguir, ela fala sobre seus sonhos, sua trajetória profissional, sobre morar na China e uma das suas grandes paixões: viajar.

    “Desde que consigo me lembrar, sempre fui uma pessoa reservada e defino minha natureza como solitária. Eu sei que minhas viagens sozinha pela China inspiram muitas mulheres a fazerem o mesmo, e isso muito me alegra, mas explorar o mundo só faz parte da minha personalidade e não é difícil para mim, não é um desafio.

    Após o ensino médio, minha intenção era de cursar Jornalismo, mas acabei graduando em Administração de Empresas. Desde então, construí minha carreira profissional no mundo das finanças. Trabalhei um longo período nessa área, mas como sempre tive uma alma criativa, acabei achando o setor bancário muito aborrecido. Em 2010, quando o mundo dos blogs começou a surgir, fui imediatamente atraída por ele. Sinto-me confiante ao expressar meus pensamentos e sentimentos através da escrita e de imagens. Como tantas pessoas naquela época, eu também criei meu próprio blog, escrevendo sobre moda, tendências e fotografia, o que transformou-se em uma válvula de escape do meu dia a dia. Apesar de gostar muito de escrever nessa plataforma, acredito que hoje em dia as pessoas procurem cada vez mais conteúdos compactos, visuais e que possam ser consumidos rapidamente. Por isso escolhi o Instagram para publicar minhas histórias, deixando o antigo blog para trás.

    Em 2012, tive a oportunidade de trabalhar em uma grande empresa espanhola de moda, a qual eu sempre sonhei fazer parte. Passei quatro anos morando e trabalhando em Amsterdã, e foi lá que conheci meu marido. A companhia, então, nos ofereceu um projeto na China, aceitamos e nos mudamos para Xangai como expatriados em 2016, cada um com seu próprio cargo. Eu trabalhava no planejamento e análise financeira da Ásia-Pacífico, contudo, desde o primeiro dia no escritório não gostei nem da atmosfera de trabalho, nem do meu papel na equipe. Essa rotina interferiu negativamente em todos os aspectos da minha vida, incluindo minha saúde. Lembro-me de ter apontado a China, por muito tempo, como causa da minha infelicidade. Há três anos, decidi deixar meu emprego, começar um novo capítulo da minha vida e desfrutar melhor da oportunidade de morar neste país. É uma jornada cheia de altos e baixos, mas acredito que foi a escolha correta. Hoje, meu marido continua na sua missão profissional como um expatriado e eu estou envolvida em diversos projetos, entre eles meu perfil no Instagram, Somestylest, onde publico minhas aventuras pelo mundo desde 2012. Estamos muito felizes vivendo na China, sentimos que Xangai é a nossa casa e não estamos planejando nos mudar para outro lugar tão brevemente.

    Recomeço como contadora de histórias

    Compartilhando com meus seguidores a mágica que existe fora da nossa zona de conforto, eu percebi que consigo inspirá-los, entretê-los, ensiná-los e, de certa forma, fazê-los viajar comigo. Sinto que, finalmente, estou realizando o que eu deveria ter feito desde sempre: contar histórias, especialmente agora que tenho a fantástica oportunidade de viver em um lugar como a China.

    Através das minhas histórias que publico no Instagram, quero transmitir principalmente conhecimento sobre esse país maravilhoso, que é completamente estranho para muitas pessoas. Especialmente depois da pandemia, eu percebi a gigantesca falta de conhecimento a respeito da China. Até mesmo eu tinha vários preconceitos antes de morar aqui.

    Não gostaria de ser considerada uma influencer. Na verdade, eu não quero influenciar ninguém, mas compartilhar da magia do meu dia a dia. Existem inúmeros perfis de viagem e gosto daqueles que compartilham fatos curiosos, anedotas e fotografias que retratam a realidade do lugar. Muitos desses “viajantes influencers” estão mais interessados na foto do que na viagem, usando trajes incoerentes com o clima local, salto alto em lugares rochosos ou fotografando em locais perigosos. Quando viajo, meu objetivo principal é desfrutar das experiências e me divertir. Naturalmente que gosto de produzir retratos interessantes, mas o mais importante é relatar as histórias daquela viagem e não encenar uma foto. Honestamente, tenho muito respeito pelo esforço e tempo devotados às fotografias, mas esses perfis estão longe de ser minha inspiração. 

    Old Town, Xangai

    Você me perguntou qual seria meu conselho para alguém que quer viajar sozinho. Meu principal conselho é que a pessoa deve ter coragem de fazer aquilo que lhe traz felicidade. Se é viajar, então siga, não espere que alguém se junte a você, simplesmente vá e divirta-se!

    Xangai

    Não há nada mais corajoso do que ser você mesmo em um mundo que constantemente te diz o que se deve realizar, ser ou sentir. Lembre-se: você não precisa provar nada a ninguém. Você só precisa ser VOCÊ!

    Conheço muitas pessoas com medo de viajar desacompanhadas, por se sentirem mais confortáveis com uma turma de amigos. Talvez não saibam como passar o tempo em sua própria companhia ou sentem-se constrangidas por estarem só. Sentar-se em um restaurante e pedir um vinho para si, é um bom exercício para se adquirir maior confiança. Parece simples, mas pode ser libertador. Em algumas situações tive a impressão de que as pessoas estavam quase com pena por me ver jantando sozinha, mas entendi que isso não é um problema meu. Eu realmente nunca me sinto solitária, mas para conseguir aproveitar essas viagens, é preciso conhecer-se bem e sentir-se confiante. Assim, você estará relaxada e feliz em todas as situações.

    Existem muitas maneiras de se viajar. Eu não sou do tipo que faz mochilão nem sou aventureira destemida. Ao contrário, sou bastante preocupada com a minha segurança, especialmente por ser mulher. Gosto de viajar com um certo conforto e ficar em um bom hotel é, para mim, muito mais gratificante e valioso do que comprar roupas e outras coisas toda semana.

    Alguns viajantes gostam de falar que, se você não experimentar as lanchonetes de rua, dormir em uma casa local ou viajar de ônibus, não é um viajante, mas apenas um turista. Sinceramente, essa é apenas a opinião deles. Viajo pelo mundo da maneira que melhor me convêm e sou igualmente uma viajante.

    Viajar sozinha é uma oportunidade de aproveitar a viagem que você (e apenas você) quer curtir, como uma página em branco a ser preenchida com sua experiência particular. Viajar em grupo ou sozinha são experiências distintas e igualmente válidas, mas gosto de poder focar minha atenção em observar os lugares, os detalhes, a maneira como as pessoas se comportam, no meu ritmo, sem ter que me preocupar ou me distrair com os outros.

    Red Brick Art Museum, Peking

    Viajando na China

    Na minha opinião, este é um dos países mais seguros no mundo inteiro. Há fiscalização, guardas e câmeras em todos os lugares, evitando situações perigosas. Algo que considero ainda mais importante é a mentalidade dos chineses, pois dificilmente eles ousariam atacar, machucar ou roubar alguém. Minha experiência me mostrou que eles são pessoas muito prestativas e simpáticas. De fato, muitos chineses nunca saíram de suas cidades natal e têm pouco acesso a conteúdo de fora da China, fazendo com que achem os estrangeiros diferentes e exóticos, além de serem bastante curiosos.

    Amo viajar sozinha pela China! Sinto-me segura e protegida o tempo todo. Então, se você gostaria de explorar esse país, não hesite. Apenas arrume sua mala e se prepare para uma aventura maravilhosa!

    Jixian Pavilion – West lake, Hangzhou

    Algumas dicas para futuros viajantes desacompanhados na China! 

    • Considere que fora das cidades principais, as pessoas NÃO falam sequer uma palavra em inglês.
    • Leve impressas ou no seu celular suas informações básicas, como detalhes do seu hotel ou outros endereços em chinês, cópia do seu passaporte entre outras.
    • Certifique-se de ter os aplicativos de “sobrevivência” instalados: didi/táxi (transporte), wechat, alipay (pagamento online e código de saúde) vpn*, tradutor.
    • Também é muito útil ter um amigo chinês que você possa ligar em caso de emergência!
    • Certifique-se de ter tudo planejado (lugares que você quer ir, ingressos/passagens que você precisa comprar, direções para chegar aos lugares).
    • Se você quiser tornar sua vida mais fácil, escolha hotéis, onde se fala inglês e o café da manhã é ocidental.
    • Particularmente não gosto de excursões em grupo, mas penso que é muito importante organizar algumas partes da sua viagem com uma agência especializada. Normalmente contrato um serviço de motorista quando a distância é muito longa. Isso salva um tempo precioso de deslocamento e ajuda a população local a ganhar a vida também com o turismo.

    Aqui você encontra Low no Instagram: Somestylest

    Revisão de texto: Rachel Mezaros

    *VPN significa “Rede privada virtual”. Conforme o nome indica, é uma rede privada do usuário que dá mais segurança na navegação, já que possui uma criptografia melhor, protegendo seus dados. Para garantir o acesso a diversos sites fora da China, é necessário se usar um aplicativo de VPN.

  • Nuances de Xangai

    Um artigo que li recentemente dizia, em uma tradução livre: “Assim funciona Xangai: destrua o que já não cabe na realidade da cidade, sofra pelo que perdeu para reconstruí-la e transformá-la em um sucesso absoluto! ”. O texto não poderia ter sido mais assertivo. Caminhando pela cidade, ainda encontram-se vestígios do que esta megalópole foi um dia. Xangai foi demolida, reconstruída, tornou-se uma das cidades mais reluzentes dos últimos vinte anos e é citada junto a outras grandes cidades, como Nova York ou Londres. Diz-se que milhares de famílias foram realocadas em prol do progresso urbano, exatamente ali, onde hoje os imponentes arranha-céus estão localizados.

    Xangai em 1989 – Wikipedia

    Xangai é uma cidade de superlativos: é a maior da República Popular da China e uma das maiores áreas metropolitanas do planeta, cujo desenvolvimento é considerado como o mais rápido do mundo!

    Conhecer Xangai de verdade requer tempo. Eu adoro caminhar sozinha pela cidade, sem pressa, observando e fotografando cenas do dia a dia desse lugar, que é lar para mais de 26 milhões de pessoas. Impressionante! Ali se vê de tudo um pouco: glamour, vida humilde, arquitetura moderna, prédios históricos, shoppings luxuosos dividindo espaço com “vendinhas”, ciclovia impecável, bicicletas compartilhadas por toda parte, sistema de metrô funcional e barato, engarrafamentos gigantescos, instalações elétricas caóticas, inúmeras câmeras de segurança, multidões. Um verdadeiro paraíso para uma fotógrafa.

    Escolhi alguns retratos de Xangai para publicar hoje. São apenas algumas nuances de uma das cidades mais interessantes que já visitei mundo afora.

    A torre Shanghai Oriental Pearl Tower está localizada no bairro de Pudong, e provavelmente, é um dos cartões postais mais fotografados do país. Com 468 metros de altura, ela é a sexta torre de TV e rádio mais alta do mundo. Principalmente à noite, quando a cidade fica toda iluminada, ela atrai milhares de visitantes, que ficam à beira do rio, no Bund, para observar e fotografar essa construção magnífica.

    O jardim Yu Garden ou Yuyuan Garden foi construído em 1559, durante a Dinastia Ming. O jardim sofreu vários danos durante o século XIX e, após sua última grande reforma, foi aberto ao público em 1961, sendo declarado monumento nacional em 1982.

    Yu Garden.

    Uma cidade cheia de contrastes.

    Templo de Jing’an ao lado de prédios modernos.

    Cenas da cidade além do turismo.

    A Mansão Wukang é um edifício histórico situado na Concessão Francesa, bairro muito popular entre os influenciadores digitais chineses. Construído em 1924, foi residência de celebridades e cenário de filmes.

    O espetáculo da cidade iluminada.

    Os edifícios de Pudong são famosos mundo afora.

    Shanghai World Financial Center e Jin Mao
    Tower.

    Xangai e suas multidões.

    Foto de Bruna Linares
    Foto de Bruna Linares
    Todas as fotografias são de Claudia Bömmels. Exceções: as fotos especificadas como de autoria de Bruna Linares, assim como as fotos históricas publicadas na Wikipedia.
  • A arte da mesa posta: além da decoração

    Antes de falar sobre um dos meus temas atuais preferidos quero me apresentar a vocês.

    Meu nome é Giovana Pizzolito, tenho 49 anos, nasci no Rio de Janeiro e cresci no interior de São Paulo. Eu sou formada em Administração de Empresas, casada e tenho dois filhos. Após passarmos uma temporada na Alemanha, nos mudamos para a China, onde moro há 10 anos. Eu sempre me interessei por decoração, mas essa facilidade de encontrar produtos com uma variedade incrível aqui na China, me inspirou a explorar mais o tema “mesa posta”, nome que também dei para o meu pequeno negócio. A mesa posta nada mais é do que a organização de pratos, talheres, copos e acessórios sobre a mesa para uma determinada refeição ou ocasião.

    Geralmente, eu crio uma mesa nova por semana, fotografo e publico nas redes sociais e grupos do Wechat e WhatsApp. Muitas pessoas já me falaram que, através do meu trabalho, elas perceberam como é importante montar uma mesa bonita para a família e não somente para visitas. Hoje em dia, vivemos todos ocupados e extremamente vidrados nos computadores e celulares. Na correria do dia-a-dia, muitas vezes, cada um come em horários diferentes. Sentar-se à mesa juntos tornou-se algo raro em muitas famílias. Me emociona receber mensagens de pessoas que se inspiraram na minha arte, resgatando esse hábito, de estarem juntas à mesa.

    Segundo a Bíblia, em diversos momentos, Jesus ministrou lições valiosas para os seus discípulos ao redor da mesa. Hoje, muitas comemorações religiosas têm como ponto central a refeição em família: a ceia de Natal, o almoço da Páscoa cristã ou a Páscoa judaica, que é inaugurada com o Sêder, um jantar no qual as famílias reúnem-se para relembrar e celebrar a libertação do povo hebreu, entre outras festividades. Antigamente, a mesa era onde a família se reunia e, ainda hoje, ela deveria ser muito mais do que apenas uma peça do mobiliário da casa.

    Aprender sobre as regras básicas e etiquetas de como se deve montar uma mesa é algo muito interessante. Mas o meu maior objetivo é que as pessoas entendam o verdadeiro sentido da mesa em nossos lares.

    Mesa posta, para mim, não é somente sobre louças e toalhas, talheres e guardanapos chiques. É sobre criar o hábito de se ter a mesa como ponto de encontro da família, proporcionando um ambiente de segurança e amor, para que cada um possa compartilhar as aventuras e problemas do seu dia-a-dia. A arte de pôr uma mesa bonita ajuda muito nesse processo, podendo ser transformador!

    Você não precisa ter louças chiques ou elaborar uma mesa posta todos os dias. Tente oferecer uma mesa bonita à sua família, uma vez por semana, e depois me conte sobre os resultados!

    Você me encontra no Instagram no perfil @mesaposta_gpizzolito Aguardo você por lá.

    No meu próximo artigo falarei sobre as regras básicas para se pôr uma mesa fácil, prática e sofisticada para as festas de fim de ano.

    Abraços e até breve!

    Giovanna Pizzolito

  • Liderança feminina na China

    Márcia Matos mora na China desde novembro de 2017 e trabalha como farmacêutica-bioquímica em Pequim. Em entrevista ela fala sobre a “Liderança Feminina na China“, um tema muito atual!

    Em 1995 aconteceu a “4ª Conferência Mundial sobre a Mulher em Pequim, quando foi adotada a “Declaração e Plataforma de Ação de Pequim”. O documento é considerado o mais abrangente sobre os direitos das mulheres. Mas ainda hoje somente 10% dos países do mundo são liderados por mulheres. Em média as mulheres têm apenas 75% dos direitos legais dos homens, mundo afora. A estimativa do Banco Mundial é que pode demorar cerca de 150 anos para se atingir a paridade de gênero em salários.

    Márcia Matos nos fala sobre sua convivência com mulheres chinesas na empresa francesa onde trabalha em Pequim, sobre as leis do país para proteger as mulheres contra discriminação no trabalho e muito mais!

    “Me mudei para a China com o meu marido e minha filha mais nova em 2017. Tenho mais duas filhas no Brasil, uma médica e outra cursando o quinto ano de medicina. Sou farmacêutica-bioquímica e trabalho na área de pesquisa clínica, etapa fundamental do desenvolvimento de novos medicamentos. Atualmente sou diretora do hub na região da Ásia-Pacífico. Hub é o centro de uma atividade ou de uma região. No caso da minha empresa, existem três hubs para coordenar todas as atividades de pesquisa clínica. Um na Europa, um para as Américas e um para a região Ásia-Pacífico, pela qual eu sou responsável. Trabalho em uma indústria farmacêutica multinacional francesa. Atualmente gerencio equipes que estão baseadas na China, Coreia do Sul, Japão e Austrália.”

    Você pode falar de como vê os conceitos de empoderamento feminino e feminismo na China?

    O que eu vou compartilhar aqui é muito do que eu observo no dia-a-dia trabalhando com mulheres chinesas e liderando uma equipe onde 99% dos colaboradores são do sexo feminino. Como sou responsável por gerenciar toda a área Ásia-Pacífico, vejo uma grande diferença da posição das mulheres na China comparada com as mulheres no Japão e na Coreia do Sul.

    As mulheres chinesas, com as quais eu trabalho aqui na China, possuem um lugar de grande destaque, e, na minha opinião pessoal, elas possuem um grande empoderamento de uma maneira muito natural. Elas não possuem uma atitude ou discurso feminista, elas naturalmente se posicionam em casa e no trabalho da maneira como querem ser reconhecidas e respeitadas. Por exemplo, percebo que em casa, elas contam com uma grande participação dos companheiros nas atividades domésticas. Eu descobri que na minha equipe, composta de diferentes cargos como assistentes, gerentes, cargo técnico, supervisoras, na grande maioria, os maridos ajudam bastante com o cuidado dos filhos, levando para atividades extra-curriculares nos finais de semana, por exemplo, ou indo à reuniões escolares quando o trabalho deles permite essa flexibilização, mostrando que essa atitude está presente no dia-a-dia delas. Além disso elas contam com um grande apoio familiar, as mulheres chinesas são incentivadas pela família a seguirem suas carreiras. Esse é apenas um recorte do que eu vivencio na empresa que trabalho. Mas acredito que é uma tendência na China.

    Por ocasião do “Dia Internacional das Mulheres”, fui convidada pela escola da minha filha para participar de uma mesa redonda, onde o tema era o “Empoderamento feminino no mundo“. As palestrantes convidadas, além de mim, eram: uma atriz e apresentadora de TV, que foi a primeira chinesa a conquistar uma medalha de ouro na ginástica olímpica, a outra foi a primeira chinesa a ganhar o título de Miss Universo, além de duas chinesas fundadoras e CEOs de Start-ups de sucesso na China. Uma delas é arquiteta e autora de vários livros na área e a outra é uma estrangeira, fundadora e CEO de uma entidade dedicada ao desenvolvimento de mulheres. Todas disseram durante o debate que sempre se sentiram à vontade no mercado de trabalho e nunca tiveram dúvidas se teriam alguma dificuldade de conquistar o seus objetivos por serem mulheres, elas simplesmente seguiram suas trajetórias. Elas falam que chegaram onde desejavam sem dar muita ênfase aos desafios enfrentados e sim às suas habilidades.

    Essas mulheres de sucesso reforçaram a importância das mulheres jovens, que estão iniciando suas carreiras, a serem determinadas e nunca desistirem, acreditarem em si mesmas e defenderem suas próprias ideias. Para isso o acesso a educação de qualidade igualitária entre os gêneros é um fator indispensável!

    Na empresa onde eu trabalho sempre existiu um grande número de mulheres na liderança e essa igualdade de gêneros já está na cultura da empresa. Na filial chinesa, que é a maior do grupo dentre 150 países, existem três grandes setores, onde dois são liderados por mulheres. Além disso existem 14 departamentos e se analisarmos a proporção entre homens e mulheres, oito departamentos são comandados por mulheres e seis por homens. Na minha equipe, por exemplo, tenho cinco gerentes e somente uma pessoa do sexo masculino.

    “Claro que sabemos que na China, como em qualquer outro país do mundo, ainda existem pontos a serem melhorados nesse aspecto, mas foi uma grande surpresa para mim observar o quanto estão avançados, se comparado com a realidade em outros países asiáticos.”

    Nos fale sobre sua experiência como executiva brasileira na área farmacêutica na China. Aceitação, língua e cultura dentro da empresa. Como lida com as diferenças?

    Como fui transferida para a China pela mesma firma, onde eu já trabalhava há 15 anos no Brasil, não senti diferença dentro da empresa. A língua é uma das grandes dificuldades de se trabalhar na China, pois mesmo lidando com médicos e pesquisadores de ponta, existe uma certa resistência em se utilizar a língua inglesa. Muitas vezes é necessário ter uma pessoa para fazer a tradução e isso dificulta muito a interação.

    Com relação a gestão de pessoas precisei adaptar o meu estilo de liderança e aprender muito sobre a cultura chinesa e asiática em geral. O que funcionava na minha forma de gerenciar no Brasil não necessariamente se aplica na China. Comecei também a observar a linguagem não verbal, pois os chineses não se expressam de maneira muito clara, principalmente quando sua opinião não é a mesma de uma pessoa de hierarquia superior. Entender essa linguagem e traduzir parar a matriz as necessidades ou pensamentos que não eram verbalizados durante as reuniões também foi bastante desafiador. Além disso pude observar grandes diferenças culturais entre os países asiáticos e nessa questão precisei me dedicar mais para entender essas dessemelhanças, já que precisava que trabalhassem bem em equipe.    

    O que pode nos falar sobre a situaçao das mulheres no mercado de trabalho chinês?

    Podemos observar que a igualdade entre gêneros no mercado de trabalho continua a melhorar na China, o que é demostrado em números no relatório “Women’s working situation in China” de 2020 e 2021. Nesse último relatório de 2021 podemos observar que a média salarial das mulheres ainda é 12% menor que a dos homens, em média, apesar de exercerem a mesma função e de terem o mesmo nível de responsabilidade. Mas o relatório também mostra que essa diferença vem diminuindo nos últimos dois anos.

    A pandemia colocou as mulheres em uma posição bem difícil no mercado de trabalho, pois as mesmas precisaram lidar diretamente com o cuidado dos filhos, já que os avós não podiam ajudar nesse período e as escolas estiveram fechadas. Os avós na China já se preparam para cuidar de seus netos muito cedo, já que isso é uma atribuição natural para eles. Aqui a maioria se aposenta aos 60 anos, uma idade relativamente jovem e então se dedicam a cuidar dos netos.  

    As mulheres ainda lidam com um certo grau de preconceito no mercado de trabalho chinês, como, por exemplo, serem questionadas sobre casamento e cuidados com os filhos. Existem leis na China que protegem as mulheres no ambiente profissional para garantir que as elas tenham os mesmos direitos dos homens:

    • Um empregador não pode se recusar a contratar uma mulher ou colocar exigências durante o processo de recrutamento em relação ao sexo, salvo exceções.
    • Não é permitido, em nenhuma hipótese, incluir qualquer conteúdo que restrinja mulheres a casarem ou cuidarem de filhos no contrato de trabalho.  
    • Anúncios de empregos também não podem restringir nenhum gênero ou mostrar qualquer preferência.
    • Durante a entrevista, empregadores não podem perguntar às mulheres questões relacionadas ao seu estado cívil, filhos ou qualquer outra questão que possa levar à discriminação de gênero.

    Há incentivos para as mulheres voltarem ao trabalho após terem filhos?

    As mulheres possuem o direito a uma hora por dia para amamentação, após a licença maternidade. Esse horário é flexível e a mulher pode escolher o melhor período durante o dia. Muitas empresas fornecem uma sala dedicada para as mulheres poderem retirar o leite e algumas permitem que as mulheres possam levar seus filhos para o escritório em caso de necessidade.

    Existe a possibilidade de se trabalhar meio período ou período parcial?

    Atualmente não existe nenhuma lei que obrigue as empresas a oferecerem meio período em contrato para as mulheres. Esse tipo de acordo depende da demanda do trabalho e da necessidade da mulher e cada caso deve ser negociado entre as partes. Mas existem ofertas e oportunidades de trabalho para meio período no mercado de trabalho na China.

    Algum outro aspecto que você ache relevante falar?

    Eu tenho observado, nos diferentes processos de recrutamento que conduzi, que as mulheres que são mães pensam muito sobre o equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho. Esse costuma ser um ponto importante na escolha delas em onde trabalhar.

    Tenho observado também que para as mulheres chinesas poder estar no mercado de trabalho é muito importante e são poucas as que querem abrir mão de uma vida profissional para se dedicar exclusivamente aos cuidados dos filhos. Para isso contam com um apoio muito grande da família, principalmente dos avós.

    Um outro aspecto interessante é que a maioria das mulheres não querem ter mais de um filho, algumas têm dois filhos. Mesmo com a mudança recente da política do governo que permite que o casal possa ter até três filhos, a grande maioria das mulheres chinesas não consideram isso como uma possibilidade viável. E quando questiono o motivo, todas falam do custo de se criar um filho na China e da importância de terem tempo para poderem se dedicar às suas carreiras.

    Obrigada Márcia pela disponibilidade de nos conceder esta entrevista!

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    Esses são os princípios do empoderamento feminino:

    1. Liderança: esse princípio busca estabelecer uma sensibilidade corporativa dos líderes de alto nível quanto à igualdade de gêneros.

    2. Igualdade de oportunidades, inclusão e não-discriminação: esse princípio declara que deve-se tratar mulheres e homens de forma justa, com oportunidades iguais, incluindo cada um dos gêneros e não discriminando nenhum ser.

    3. Segurança, saúde e fim da violência: com isso, fica estabelecido que o empregador deve garantir a saúde, o bem-estar e principalmente a segurança de todas as mulheres e homens da empresa.

    4. Formação e educação: é necessário promover uma formação, capacitação, educação e de desenvolvimento profissional para mulheres.

    5. Empreendedorismo e políticas de empoderamento: com isso, quer dizer que as empresas devem apoiar o empreendedorismo de mulheres e as práticas de marketing que empoderem as mulheres.

    6. Ativismo social: além disso, as empresas devem também promover a igualdade em práticas comunitárias e o ativismo social.

    7. Acompanhamento de resultados: por fim, as empresas devem medir e acompanhar os resultados dessas práticas de igualdade de gênero. Aliás, devem também documentar e publicar esses resultados, estabelecendo transparência.