Brasileiros mundo afora levou um papo descontraido e online sobre paternidade com dois blogueiros de viagem que são pais no exterior. Daniel Duclos é capixaba, de Vitória, cursou Biologia e Letras na Universidade de São Paulo e hoje escreve profissionalmente no seu blog Ducs Amsterdam. Além disso, Daniel é stay at home dad* na Holanda, onde mora e equilibra trabalho e famíla. Michel Zylberberg é carioca e escreve no seu blog Rodando Pelo Mundo. É casado com uma italiana, pai de uma filha e tenta balancear os vários papéis que ele exerce na Suiça: pai, marido, designer gráfico, fotógrafo e blogueiro.

 

 Entrevista: Claudia Bömmels     |    Fotos: Arquivo pessoal
 

Brasileiros mundo afora (BMA): Daniel, você e sua esposa decidiram que ela trabalharia fora e você ficaria em casa cuidando da filha de vocês. Como os seus amigos e a família no Brasil reagiram? Michel, essa seria uma opção para você? Como é a divisão de tarefas em casa?

Daniel: A decisão de eu ficar cuidando da nossa filha, que apelidamos carinhosamente de Babyduc, foi tomada bem antes dela nascer, quando passei a me dedicar ao Ducs Amsterdam como profissão e negócio. Enfrentei preconceito e resistência antes da bebê nascer, quando poucos entendiam o que eu estava fazendo. Hoje em dia esse é um conceito já mais praticado, mas há alguns anos era quase que desconhecido. Quando a Babyduc nasceu, o blog já estava fazendo algum sucesso e dando retorno. Então foi um pouco mais fácil de as pessoas entenderem nossa escolha: a Carla trabalhar fora e eu cuidar da pequena. Hoje, apesar de vez em quando ouvir algo atravessado, também recebo bastante apoio. Consigo ter um salário maior do que eu tinha no Brasil e ainda tenho tempo para me dedicar à família.

Michel: Acho muito legal a postura do Daniel, tendo enfrentado barreiras e preconceitos. Acredito que, no caso deles, tenha sido a melhor decisão. Já conosco as coisas foram um pouco diferentes, até porque o que eu ganho com o blog está longe de ser suficiente para viver. No mundo dos blogs de viagens, são poucos no mesmo nível do Ducs Amsterdam. Se pudesse viver de blog seria perfeito. Mas design foi a profissão na qual me formei e ter encontrado um emprego na área na Suiça foi bem legal também.

Trabalho como designer gráfico em um jornal e cada semana tenho um turno diferente. Chego a trabalhar, muitas vezes, até meia-noite e também aos domingos. Mesmo ganhando um salário razoável, ainda sim não é suficiente para cobrir os gastos de uma família com filho na Suíça. Então, minha esposa trabalha meio período. Nesse tempo, a nossa filha frequenta uma creche, desde que ela completou cinco meses. É difícil conciliar traba-lho, família, blog, viagens e fotografia – minha grande paixão. Muitas vezes, fico acordado trabalhando no blog até de madrugada e o dia fica apertado. Mas nos damos muito bem, dividimos todas as tarefas e a nossa gringui-nha, apesar de ter menos de dois anos, já viajou conosco muitas vezes.

BMA: Como é a rotina de um dono de casa?

Daniel: Bom, assim como nossa família não tem chefe, nossa casa não tem dono. Somos uma cooperativa e cada um faz a sua parte. Até mesmo a Babyduc, com seus dois aninhos, adora participar da movimentação da casa. A Carla trabalha período integral, então eu fico com a nossa filha durante o horário comercial. Quando a Carla chega, ficamos juntos, jantamos e trocamos: eu vou para o trabalho e ela fica com a bebê. Eu alugo um escritório compartilhado, assim saio de casa, encontro outros empreendedores e tenho um tempo exclusivo para  trabalhar. Nos finais de semana, fazemos questão de sair juntos.

Michel: Como geralmente tenho as manhãs livres, aproveito para organizar a casa, limpar e fazer compras. A única coisa em que minha esposa insiste, mas não levo jeito e acabo me esquivando, é cozinhar.

Daniel: Michel, eu também não levo jeito para cozinha, mas percebi que cozinhar é como qualquer coisa: se você tem talento vai ser fácil, mas se não tiver, sempre é possível aprender o básico. A Carla tem bastante jeito para ensinar e me deu diversas e pacientes aulas. Se eu que era daqueles que queimava miojo consegui, todo mundo tem salvação.

BMA: Como vocês encaixam o trabalho relacionado ao blog no dia a dia? Como as parceiras encaram esse trabalho?

Michel:
Depois de sete anos trabalhando em todos horários possíveis e imagináveis, decidi convidar dois amigos para participarem do Rodando Pelo Mundo. Essa mudança ainda é recente e estamos buscando um ritmo para as publicações. Recebo também várias colaborações de blogueiros, amigos e leitores que ajudam a dar mais conteúdo de qualidade para o blog. A minha esposa aceita bem, respeita e acompanha o blog, até porque ela trabalha em uma agência de viagens. Hoje busco o equilíbrio, mas é complicado. Responder mensagens, tweets, publicar no Instagram, ler os recados no Facebook e tudo mais toma um bom tempo. Mas estar com a família e curtir juntos é e sempre será a minha prioridade.Daniel: Como já tinha dito, a ideia é que durante o horário comercial eu cuide da Babyduc e da casa. Durante a noite eu saio para o escritório para trabalhar no blog. Nem todo dia isso acontece: se estiver muito frio lá fora, por exemplo, é possível que eu fique em casa. Tem dias em que fico doente, tem dias em que a bebê precisa um pouco mais de mim. Às vezes, o blog sofre com isso e eu poderia estar crescendo bem mais se tivesse mais tempo. Mas foi uma escolha consciente que fizemos. A Carla sempre foi a maior incentivadora do meu projeto com o blog, e sem o seu apoio isso nunca teria virado realidade. Nos momentos em que eu desanimava ela me dava força para continuar. Nos momentos em que as coisas deram (e dão) errado, ela segura o tranco firme e continua me apoiando e me ajudando a manter o foco. Juntos estabelecemos metas de crescimento de renda e ela é bem agressiva com as metas! (risos). Enfim, eu faço o Ducs Amsterdam, mas sem a Carla o Ducs não existiria. É, como a nossa família, um projeto conjunto. Ah, parabéns  Michel pelos novos membros do Rodando!

Michel: Valeu! Senti que era o momento de mudar e agora é esperar pelos frutos que essa nova semente vai trazer. Concordo que a família é mesmo um pilar fundamental nessa caminhada, mas além dela temos também uma grande comunidade de blogueiros que se ajudam.
O Ducs Amsterdam é uma grande referência entre os blogueiros. O Daniel nunca escondeu a “receita do sucesso” e quer ver outros blogueiros crescendo junto com ele.

Daniel: Fico até sem graça Michel, mas também muito feliz em saber que consigo, de uma maneira ou outra, ajudar. Concordo contigo, sempre preferi colaboração à concorrência e acho que a força mútua entre os blogs é fundamental.

BMA: Como é o sistema de creches, maternal e jardim de infância na Holanda e Suiça?

Daniel: Creches aqui são muito caras e tem filas de espera. Porém, o governo dá uma ajuda e subsidia uma parte dos custos. A licença maternidade aqui na Holanda é relativamente curta: quatro meses, sendo que um mês deve ser tirado antes da data esperada para o parto. A licença paternidade é ridicularmente pequena: dois dias. Existe também uma licença parental não remunerada de 26 semanas para os dois se estiverem empregados há mais de um ano e a criança tiver menos de oito anos. Logicamente que fazer uma pausa sem receber por seis meses é inviável em 99,99% dos casos. Então, o que as pessoas fazem é tirar um dia por semana sem ganhar, diminuindo o impacto na renda e tendo uma semana de quatro dias por alguns anos.

Michel: As creches aqui na Suiça também são muito caras, como todo o resto. O altíssimo custo de vida é o preço pelo famoso “padrão de qualidade suíço”, que no final das contas até vale a pena. Essa opção da creche só se tornou viável para nós porque o trabalho da minha esposa reembolsa uma parte dos custos, o que alivia bastante as finanças. A licença paternidade aqui consegue ser ainda menor: um dia! Lembro que eu trabalhava como um zumbi nos primeiros tempos. A licença maternidade é de 14 semanas e as empresas são obrigadas a pagar uma ajuda de custo de 200 francos (cerca de 400 reais) por mês para cada filho.

BMA: Daniel, uma vez você escreveu que não é o único pai nos parquinhos públicos. Conte um pouco mais para nós.

Daniel:
Sim, se vê bastante pai cuidando dos filhos aqui, apesar das mulheres ainda serem maioria. Às vezes, me sinto um ET no parquinho. Mas também há dias em que nós homens somamos um número maior. As mães e os pais, em geral, são bem amistosos e eu consigo treinar meu holandês com eles. Também compartilhamos experiências. Não sinto qualquer hostilidade por eu ser um homem cuidando de uma criança no parquinho.

BMA: Michel como é na Suiça?

Michel:
Aqui geralmente são as mães e/ou avós que vão aos parquinhos. É raro ver pais por lá.  Estes vão mais nos fins de semana. Mas, como existem parquinhos públicos em quase todos os quarteirões, muitos pequenos brincam sozinhos. Existe uma cultura muito legal de as crianças brincarem e fazerem esportes ao ar livre, apesar do clima frio boa parte do ano. Nos fins de semana, passeamos bastante com a nossa filha e tentamos ficar o mínimo possível trancados em casa.

Daniel: Essa é uma dica boa Michel: sair. Ficar trancado dentro de casa é ruim tanto para o pai como para a criança. Eu saio sempre com a Babyduc, mesmo quando faz frio. É muito raro ver por aqui o que um amigo meu chamou de “piá de prédio”, ou seja, criança criada dentro de casa.

BMA: Na Alemanha, cada vez mais pais querem tirar licença paternidade e participar mais da criação dos filhos. Outros reclamam sobre as altas expectativas que se tem com o homem moderno hoje em dia: ser bom pai, ter um bom emprego, sustentar a casa, ser um bom parceiro…

Daniel: Cara, mas eu não acho que ser bom pai e bom marido seja expectativa alta. Pelo contrário, penso que é o mínimo esperado. Ter um bom emprego, já é o caso de discutir: O que é um bom emprego? O que dá muito dinheiro? Será que esse é o melhor critério? Não concordo dessas coisas serem expectativas altas impostas ao homem moderno. Acho que isso é o razoável de se esperar de uma pessoa: ser um bom pai ou uma boa mãe, companheiro, ser produtivo e contribuir de alguma forma para sociedade.

Outra coisa que implico é com essa de “pai participar”. Participar da criação dá a entender que é obrigação da mãe e o pai “participa”. Eu acho que pai não participa da criação, pai cria. Se não, não é pai.

Eu fico com a Babyduc em casa durante 40 horas por semana, e ninguém diz que a Carla “participa” da criação dela. Ela cria nossa filha tanto quanto eu. E acho que com pai deve ser a mesma coisa, independente dele trabalhar fora ou não. Criar é tarefa dos dois. Já me disseram que admiram o sacrifício que faço pela minha filha, cuidando dela durante o dia. Eu entendo os sentimento da pessoa, pois realmente muitas vezes o trabalho de criar filho tem momentos muito difíceis, mas eu nunca considerei um sacrifício. Considero, na verdade, um privilégio. E tenho grande orgulho de ser pai, marido e também um stay at home dad.

Gostaria de finalizar com uma citação de John Lennon, que me inspira:

“So I like it to be known that, yes, I looked after the baby and I made bread and I was a househusband and I am proud of it. It’s the wave of the future and I’m glad to be in.”*

Michel: Difícil acrescentar algo depois de uma frase do Lennon. Tento todos os dias ser um pai melhor, mas é tudo questão de instinto e respeito. Não existe coisa melhor para uma criança do que crescer em um ambiente saudável e equilibrado. Cabe a nós, pais, darmos o nosso melhor.

Contato:

Ducs Amsterdam
www.ducsamsterdam.net

Rodando Pelo Mundo
www.rodandopelomundo.com



* Pai em tempo integral
* Eu gostaria que ficasse registrado que, sim, eu cuidei do bebê e eu fiz pão e eu fui um dono de casa e tenho orgulho disso. É a onda do futuro e estou contente de fazer parte dela.