Texto: Alessandra Marchi Carrasco | Foto: Miriam Naef | Ilustração: Claudia Bömmels
Ao me tornar uma estrangeira, acabei me deparando com a necessidade de me definir enquanto brasileira. De uma forma ou de outra, acho que todas as pessoas que deixam seu país para morar em um lugar diferente, com outros costumes, outra língua e outro clima, sentem em algum momento o peso de pertencer a outro local ou mesmo de não pertencer a canto nenhum. Por mais que o novo país te acolha e que você descubra as maravilhas de conhecer outra cultura e aprender uma nova forma de viver, você nunca pertencerá totalmente àquele lugar. Seu país de origem também não é mais a sua casa, pois seus hábitos mudaram, seu estilo de vida agora é outro. 
A adaptação ao novo ambiente é sempre dolorosa, seja pela dificuldade linguística, pelas diferenças culturais e comportamentais, ou até mesmo por causa do clima. No começo há um acúmulo de perrengues, frustrações e desencantos. Passada esta fase, a ambientação ao novo lar e as suas oportunidades torna-se natural para quem, com determinação, resolveu ficar e ser um “estrangeiro adaptado“. 
Recomeçar, ou reinventar-se é maravilhoso e desesperador ao mesmo tempo, todas as possibilidades estão abertas, contudo não há mais certezas ou confortos. O estrangeiro tem que trabalhar dobrado para se provar capaz e, ainda, precisa aprender a nova língua para interagir plenamente no novo lugar. Cada um tem a sua própria maneira de lidar com essa situação e de vencer os desafios impostos pela nova realidade. 
Bolha Brasileira 
 Nós brasileiros temos uma certa facilidade de nos adaptar e de criar novas oportunidades e soluções. Temos esse “jogo de cintura” e com nosso “jeitinho” acabamos muitas vezes por conquistar nosso espaço e o respeito do nativos do local. Felizmente, a maioria dos brasileiros que tenho conhecido no exterior são pessoas talentosas e que encontraram uma forma bem sucedida de lidar e aproveitar o que o novo ambiente tem a oferecer. Existem também aquelas pessoas que criam uma “bolha brasileira” no novo país, sendo assim não aprendem a língua do local ou fazem amizade com os estrangeiros. Essas pequenas “ilhas brasileiras” são verdadeiros paraísos no qual você pode encontrar conforto e partilhar suas dificuldades em lidar com a nova cultura que se apresenta à sua frente. Você tem liberdade para se expressar na sua melhor maneira e na sua língua sem medo de ser mal interpretado pela diferença cultural. 
Eu mesma, confesso, de certa forma vivo transitando entre estas bolhas, e, no começo, foi realmente incrível ter um pedacinho do Brasil no meu novo e estranho lar. Minhas queridas amigas brasileiras me ajudaram muito na árdua adaptação e sempre ofereceram a compreensão esperada quando a frieza europeia congelava meu simpático sorriso brasileiro. Isto transformou a transição em algo menos doloroso para mim. Contudo, com o passar do tempo, comecei a perceber que era muito limitador e empobrecedor não me expor a típica vida austríaca. Resolvi me dar a chance de aprender um pouco com estas pessoas tão diferentes e desafiadoras, que falam essa língua incompreensível e que soava, para mim, dura e fria: a língua alemã. 
Comecei a me questionar sobre qual seria o segredo para a completa adaptação. Seria, talvez, abandonar de vez nossa cultura e costumes e imergir de corpo e alma no novo país? Algumas pessoas fazem isso, afastam-se dos brasileiros e evitam falar português. Assumem com certa timidez o status de brasileiro e discretamente mantêm um ou outro amigo brasileiro na sua lista de contatos, só por precaução, nunca se sabe. Criticar excessivamente o Brasil ou esquecer-se completamente das dificuldades que a vida lá traz, parece dividir boa parte dos expatriados, o que acredito ser muito normal. 
Será o Brasil tão afetuoso quando comparado à Áustria ou à Alemanha? 
Será que realmente somos tão mais simpáticos e prestativos? Ou será que nossa “desorganização” não contém também uma dose de eficiência e flexibilidade? A individualidade europeia muitas vezes torna a adaptação penosa e demorada. Mas isso não precisa ser visto como falta de simpatia ou humanidade, eles são apenas diferentes. Quem conseguir vencer essa barreira, tenho certeza, encontrará amigos sinceros e leais, porém não necessariamente do jeito brasileiro. 
No meio de tantas maneiras de se inserir na nossa cultura e tantas formas de lidar com a própria nacionalidade e patriotismo, acabei por me ver como uma militante da “brasilidade” fora do Brasil, seja por meio das minhas aulas de português, da literatura ou dos filmes. Desde que cheguei em Salzburg e agora em Berlin tento sempre estabelecer uma ponte entre aquilo que eu sou e tenho de bom para oferecer, enquanto brasileira, e aquilo que venho aprendendo com os austríacos e os alemães. Adaptando-me, por um lado, e me redescobrindo por outro. 
Para mim, tentar encontrar o equilíbrio entre estas diferentes culturas é a melhor forma de lidar com elas. Adoro falar português e ter contato com os outros brasileiros que aqui estão, mas também adoro aprender alemão e descobrir o que eu posso melhorar. 
Considero-me afortunada, porque aqui posso ter um pouco dos dois: trazer um pouco do Brasil para a Europa e levar um pouco da Europa para o meu Brasil. 
Alessandra Marchi Carrasco nasceu há 30 anos em Sorocaba, São Paulo. No Brasil ela cursou a Faculdade de Letras Português e Grego e fez mestrado em História da Filosofia Antiga, ambos na Universidade de São Paulo. Alessandra morou na Áustria durante dois anos e vive na Alemanha há seis meses. Além de ser professora de português para estrangeiros, ela é escritora e estuda cinema em Berlim, na Met film School e Deutsche Pop. Acabou de terminar o seu primeiro curta-metragem e teve seu terceiro conto publicado.