Minha avó tem 82 anos de idade e nunca na vida pensou que poderia viajar o mundo. Com sete filhos para criar, uma família pobre e um marido doente, os dias eram divididos entre o trabalho em casas de família e a volta para casa para cuidar da própria família. Já com 79 anos, minha avó conseguiu acumular duas aposentadorias e vivia bem na sua casa com quintal. Mas eu comecei a perceber que, mesmo cheia de vida, ela estava começando a ficar desanimada, como se a sua vida já estivesse atingido o seu patamar máximo.
Muito agarrada a ela, fiquei pensando no que eu poderia fazer para que ela visse que ainda poderia fazer muito por sua vida e de outras pessoas. Cuidar de netos não era bem o que eu tinha em mente. Eu estava pensando nela e não em servir de babá. Dançar, ela também não era muito fã. Entrar em grupo de terceira idade não era bem o seu estilo. Voltar a estudar, seria muito esforço já que não completou nem o primeiro grau. Foi quando pensei: um cruzeiro! Combinei com a minha mãe e demos um cruzeiro para ela de presente. Eu, minha avó, minha tia e meu afilhado embarcamos na aventura. O roteiro foi: Rio – Santos – Porto Belo – Ilha Grande – Rio. Fiquei morrendo de medo dela não gostar, de não aceitar viajar, de enjoar demais, mas ela foi com muito bom humor. Porém, eu só tive a certeza de que estava fazendo a coisa certa quando o navio estava saindo do Rio. Minha avó olhou para a ponte Rio-Niterói e disse com o olhar perdido: 
 “Agora veja, eu vinha trabalhar na casa da minha patroa e nunca na vida pensei que eu veria esta ponte pronta. Agora eu estou aqui, dentro desta cabine de navio, tão lindo, fazendo um passeio. Quando na vida eu teria este sonho ousado…”
Fiquei tão feliz e emocionada de ver a minha avó daquele jeito que decidi fazer mais. Em seis meses, minha mãe viajaria para a Amsterdam para visitar o namorado holandês. Combinamos tudo: minha avó iria para a Holanda! Sua primeira viagem internacional com 80 anos de idade. Achamos que ela não toparia, mas ela foi. Durante oito dias ela ficou encantada com as belezas das flores em Amsterdam. Mas o maior desafio seria a volta já que a minha mãe ficaria por lá por mais umas semanas. Minha avó, que mal escreve e lê em português, tinha que voltar sozinha. Minha mãe fez papéis com desenhos para ela se comunicar e pediu ajuda para a empresa aérea. Resultado: Nós passamos as 14 horas mais tensas de nossas vidas. A minha avó não sabe nem usar um celular. Mas ela chegou sã, salva e feliz.
No ano seguinte, resolvemos ir para a Disney e convidei a minha avó. Ela topou na hora. Aos 81 anos, Disney e Nova York eram o novo destino. Passamos 15 dias nos Estados Unidos e ela aguentou firme, deixando as outras 15 pessoas do grupo sem entender como uma senhora de 81 anos podia andar por 12, 13 horas seguidas e ainda ir a quase todos os brinquedos rindo, feliz. De lá para cá são pequenas viagens, mas já teve mais um cruzeiro para Salvador. 
Minha avó me ensinou tanta coisa, me deu tantos cuidados, que eu sempre pensava em como eu poderia retribuir. Eu queria vê-la sorrir como me fez sorrir tantas vezes na vida.
E este foi o melhor que puder fazer: ajudá-la a enxergar que a vida ainda tem muito a oferecer e que nunca é tarde para começar a viajar, nunca. A gente pensa muito na família no momento de dificuldade, mas eu sempre penso em como posso levar para eles, a cada dia, um pouquinho mais de felicidade.

Com a minha avó eu aprendi que não tem idade para viajar, não mesmo. Ah! E é ela que pa- ga as próprias viagens. Ela decidiu que viajar é prioridade e que os netos e filhos terão a vida inteira para construírem seu futuro. O dinheiro dela, agora, é para ela ser feliz, mais feliz.

Flávia Mariano é jornalista e escritora. Nasceu no Rio de janeiro, já visitou 37 países e publicou três livros. Um deles, Equilíbrio – a vida não faz acordos, está entre os mais baixados da Amazon Brasil:

Apaixonada pelo universo feminino, trabalha como editora dos blogs

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